
Quando examinamos a história da Maçonaria, encontramos um oceano de lendas, mitos e romantismo. É muito fácil nos perdermos nas narrativas fantásticas sobre os Cavaleiros Templários na Escócia ou nos mistérios inescrutáveis do antigo Egito. No entanto, se quisermos entender exatamente como a Ordem que praticamos hoje tomou sua forma filosófica, estrutural e institucional, precisamos colocar os pés no chão da Inglaterra do início do século XVIII. Precisamos abrir as páginas das Constituições dos Franco-Maçons, publicadas em 1723 pelo reverendo presbiteriano James Anderson.

Este documento é a certidão de nascimento da Maçonaria Especulativa. Antes de 1723, existiam os Manuscritos Antigos (Old Charges) dos pedreiros operativos — pergaminhos que misturavam lendas bíblicas com regras práticas de conduta no canteiro de obras. Mas o mundo estava mudando. A Europa passava pelo Renascimento e pelo Iluminismo. A geometria deixava de ser apenas a arte de erguer catedrais de pedra e se tornava a linguagem para compreender a mente do Grande Arquiteto do Universo. As Constituições de Anderson capturaram essa transição com precisão cirúrgica. Elas forneceram o arcabouço intelectual para que homens de diferentes religiões, classes e profissões pudessem se sentar juntos como Irmãos.
Neste artigo, vamos separar rigorosamente a “história mítica” da “história documental”. Vamos analisar o contexto sociopolítico de Londres, o envolvimento crucial de mentes científicas como Jean-Théophile Desaguliers, detalhar as seis Obrigações (Charges) que fundaram nossa ética e decodificar o simbolismo esotérico presente no famoso frontispício da obra. Pegue seu café, ajuste seu foco intelectual e vamos ao trabalho.
O Contexto Documental: A Londres do Iluminismo e a Royal Society
Para compreender as Constituições, primeiro olhamos para a Londres pós-1666. O Grande Incêndio havia devastado a cidade. A reconstrução exigiu um exército de construtores, arquitetos e pedreiros. Nesse esforço colossal, liderado por mentes como Sir Christopher Wren, os grêmios operativos começaram a aceitar membros que não trabalhavam fisicamente com a pedra. Eram nobres, antiquários, filósofos e burgueses interessados na arquitetura, na geometria e na moralidade. Eram os chamados maçons “aceitos”.
No Dia de São João Batista, 24 de junho de 1717, quatro dessas Lojas londrinas se reuniram na taberna Goose and Gridiron (O Ganso e a Grelha). Elas uniram forças para criar uma Primeira Grande Loja (Premier Grand Lodge). Inicialmente, era apenas um corpo administrativo modesto para organizar jantares e festivais anuais. A transformação real aconteceu quando a aristocracia e a intelectualidade científica tomaram as rédeas da instituição.
É aqui que entra uma figura muitas vezes eclipsada por Anderson: Jean-Théophile Desaguliers. Refugiado huguenote (protestante francês), Desaguliers era membro proeminente da Royal Society e discípulo direto de Isaac Newton. A Royal Society promovia a ciência experimental, o debate racional e a busca pelas leis universais da natureza, distanciando-se dos dogmas religiosos que haviam banhado a Europa em sangue durante a Guerra dos Trinta Anos.
Desaguliers e seus pares enxergaram na Maçonaria o veículo perfeito para disseminar ideais iluministas de tolerância, fraternidade e progresso científico. Faltava apenas um documento que consolidasse essa visão. Em 1721, a Grande Loja encarregou o Reverendo James Anderson — um genealogista e clérigo escocês — de compilar e revisar as velhas Constituições Góticas. Anderson apresentou seu trabalho, Desaguliers ajudou a refinar (e provavelmente redigiu o prefácio), e o documento foi publicado em 1723.
A História Mítica vs. A História Factual
A primeira parte das Constituições de 1723 é uma história elaborada da Ordem. Ao lermos a genealogia maçônica descrita por Anderson, é difícil não soltar um sorriso. Ele conecta Adão, Noé, Moisés, o Rei Salomão, Pitágoras e o Rei Athelstan da Inglaterra com uma naturalidade que beira a ficção fantástica.
No texto, Anderson afirma que Adão possuía a geometria escrita em seu coração. Conta que Noé construiu a Arca segundo princípios maçônicos e que Moisés era o Grão-Mestre da Loja de Israel no deserto. Essa narrativa continua, traçando o “conhecimento arquitetônico e geométrico” através da construção do Templo de Salomão, passando pelas ordens clássicas gregas e romanas, até chegar à Grã-Bretanha contemporânea.

Do ponto de vista do Rigor Histórico Documental, sabemos que nada disso é factual. A Maçonaria como instituição orgânica e especulativa não existia no deserto do Sinai ou na Grécia Antiga. A Ordem moderna é herdeira direta das corporações de ofício medievais da Escócia e da Inglaterra, que por sua vez se desenvolveram a partir da necessidade de organizar o trabalho assalariado dos construtores de catedrais.
No entanto, cometeríamos um erro crasso se descartássemos a história de Anderson apenas como “mentira”. Trata-se de uma História Alegórica. Para o leitor interessado em esoterismo e filosofia, a intenção de Anderson fica clara: ele não estava escrevendo um livro de história acadêmica, estava construindo uma linhagem arquetípica. Ele usou a arquitetura e a geometria sagrada como metáforas para a transmissão da Sabedoria Primordial (a Philosophia Perennis). Quando Anderson diz que Moisés e Pitágoras eram “maçons”, ele nos informa que a Maçonaria é a herdeira simbólica da busca humana pela Verdade, seja através da lei moral (Moisés) ou da proporção matemática e cósmica (Pitágoras). É um manifesto de intenções focado no desenvolvimento humano por meio do estudo da geometria.
As Obrigações de um Franco-Maçom (The Charges)
Após a história mítica, chegamos ao núcleo filosófico do documento: As seis “Obrigações” ou “Deveres”. Esta seção ditou o comportamento maçônico e permanece como a espinha dorsal da regularidade maçônica até os dias de hoje no Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) e em diversas outras práticas.
I. A Respeito de Deus e da Religião
A primeira obrigação é o texto mais audacioso e revolucionário de todo o livro. Em uma época onde homens eram enforcados por discordâncias teológicas, Anderson escreve:
“Um Maçom é obrigado, por sua Condição, a obedecer à Lei Moral; e se ele compreende bem a Arte, nunca será um estúpido Ateu, nem um Libertino irreligioso. (…) agora se pensa mais acertado obrigá-los apenas àquela Religião na qual todos os Homens concordam, deixando-lhes suas Opiniões Particulares para si próprios; isto é, serem Homens Bons e Leais, ou Homens de Honra e Honestidade, quaisquer que sejam as Denominações ou Crenças que os possam distinguir.”
Esta passagem rompe completamente com o passado operativo. Os antigos grêmios eram estritamente cristãos (geralmente católicos na era medieval e protestantes posteriormente) e devotos da Trindade. Anderson e Desaguliers universalizam a fraternidade. Eles introduzem o conceito do Deísmo Iluminista: a ideia de um Deus criador (O Grande Arquiteto do Universo) cuja existência é provada pela ordem geométrica da natureza. Ao exigir apenas que sejam “Homens Bons e Leais”, a Maçonaria criou um oásis de tolerância onde judeus, cristãos, muçulmanos e homens de diversas correntes esotéricas poderiam compartilhar o pão.
II. Do Magistrado Civil Supremo e Subordinado
A segunda regra afirma que um maçom deve ser um sujeito pacífico aos poderes civis e nunca se envolver em complôs e conspirações contra a paz e o bem da nação.
Contexto importa. Em 1723, a Inglaterra vivia sob a ameaça constante das rebeliões Jacobitas (partidários da Casa de Stuart, católicos e exilados). A Grande Loja de Londres era fortemente leal à Casa de Hanôver (o rei George I). Esta obrigação foi inserida para garantir ao Estado que as lojas maçônicas — que operavam a portas fechadas e guardavam segredos — não eram células revolucionárias ou sediciosas. Mantemos o respeito às leis da nação onde residimos como um princípio imutável da Ordem.
III. Das Lojas
Anderson define a Loja como o local onde os maçons se reúnem e trabalham. Ele estipula as regras de admissão que formam os famosos Landmarks:
“As Pessoas admitidas Membros de uma Loja devem ser Homens Bons e Verdadeiros, nascidos Livres, de Idade Madura e Discreta, nem Servos, nem Mulheres, nem Homens Imorais ou Escandalosos, mas de Boa Reputação.”
Aqui vemos a transição do trabalho livre da Idade Média. Um maçom operativo precisava ser “livre” (não servo da gleba) para poder viajar de cidade em cidade oferecendo sua arte. Na Maçonaria Especulativa, o homem livre torna-se aquele que é livre de vícios e amarras morais, capaz de pensar por si mesmo.
IV. Dos Mestres, Vigilantes, Companheiros e Aprendizes
Este trecho consagra a meritocracia dentro da Ordem. Anderson decreta que as promoções não devem se basear em antiguidade ou linhagem nobre, mas exclusivamente no mérito moral e no conhecimento da Arte.
“Toda Preferência entre os Maçons fundamenta-se apenas no Valor Real e no Mérito Pessoal.”
Dentro de uma loja em pleno século XVIII, um plebeu bem instruído poderia ocupar o cargo de Venerável Mestre e presidir sobre um Duque ou um Conde. Isso subvertia a ordem hierárquica do mundo profano e criava uma verdadeira escola de virtudes.
V. Da Gestão do Ofício no Trabalho e VI. Do Comportamento
As últimas obrigações detalham a conduta prática. Falam sobre a necessidade de pagar o salário justo (uma metáfora para o reconhecimento do trabalho maçônico de estudo e caridade), de evitar brigas, de proteger os Irmãos estrangeiros e de manter a discrição perante pessoas estranhas à Ordem (“profanos”).
O foco é a construção do Templo Interior. O comportamento ético no mundo exterior é a argamassa que une as pedras polidas da fraternidade. Se o maçom agir com honra, ele enaltece toda a instituição.
Os Regulamentos Gerais de George Payne
As Constituições também trazem os Regulamentos Gerais, compilados primeiramente por George Payne, Grão-Mestre em 1720. São 39 artigos que criam o direito administrativo maçônico. Eles estabelecem os poderes do Grão-Mestre, o processo de votação (sempre unânime para a aceitação de novos membros), a organização da Grande Assembleia Anual, e os direitos das Lojas subordinadas.
Esses regulamentos transformaram um grupo de pensadores esotéricos em uma corporação administrativa eficiente. A clareza burocrática destes 39 artigos permitiu que o modelo maçônico inglês fosse exportado com facilidade para a França, Américas e o resto do mundo, dando origem a todo o sistema maçônico global.
O Simbolismo Esotérico e Geométrico do Frontispício
A publicação de 1723 incluiu um frontispício encomendado ao gravador John Pine. Analisar esta imagem é mergulhar na mente dos criadores da Maçonaria moderna. A imagem não ilustra apenas a transmissão de autoridade; ela codifica a cosmologia da Ordem.
Na gravura, vemos um pórtico sustentado por colunas clássicas. No centro, o duque de Montagu (Grão-Mestre de 1721) passa o pergaminho das Constituições para seu sucessor, o duque de Wharton. Mas as figuras humanas são secundárias em relação ao ambiente geométrico e místico.
No chão da cena, gravado na pedra, encontramos a 47ª Proposição do Primeiro Livro de Euclides (o Teorema de Pitágoras). No esoterismo, este teorema representa a perfeição universal. O triângulo retângulo de proporções 3-4-5 foi usado pelos construtores egípcios para estabelecer o ângulo reto perfeito. Filosoficamente, o 3 representa Osíris (o princípio masculino), o 4 representa Ísis (o princípio feminino), e o 5 representa Hórus (a manifestação, a criação). Pitágoras é citado diretamente no texto das Constituições por sua dedicação a essa ciência sagrada.
No céu, acima da estrutura, Apolo — o deus grego do Sol, da luz, da verdade e das artes — cavalga sua carruagem dissipando as trevas. Esta é uma referência solar direta, indicando que a luz maçônica surge no Leste e ilumina o mundo. Mostra que o projeto especulativo tem raízes na filosofia hermética e nas tradições solares do misticismo clássico. A presença da Água e da Terra no frontispício alude aos elementos alquímicos, lembrando-nos que os fundadores da Ordem também flertavam com o Rosacrucianismo e o Hermetismo, correntes de pensamento extremamente influentes na Royal Society.
A Edição de 1738 e a Semente do Cisma
Quinze anos após a primeira publicação, James Anderson lançou uma segunda edição revisada em 1738. A história mítica foi consideravelmente expandida, as listas de Grandes Oficiais foram atualizadas, mas uma alteração na Primeira Obrigação gerou profundo desconforto. Anderson modificou o texto original sobre religião, adotando um tom ligeiramente mais permissivo ou interpretativo, chamando os maçons de “verdadeiros Noaquitas” (seguidores das Sete Leis de Noé, um conceito cabalístico e rabínico de ética universal aplicável aos não-judeus).
Essa e outras mudanças nas palavras de passe e nos rituais de reconhecimento geraram insatisfação entre as Lojas que consideravam que a Grande Loja havia se afastado dos verdadeiros costumes operativos. Lojas escocesas e irlandesas ativas em Londres rejeitaram essas inovações. Em 1751, esse descontentamento culminaria na formação da Grande Loja dos Antigos (Antient Grand Lodge), acusando a Grande Loja Original de serem “Modernos” que alteraram os antigos marcos.

As Constituições de 1723 representam, portanto, o documento fundamental dos “Modernos”, que priorizavam o intelectualismo, o universalismo deísta e o estudo filosófico abstrato em detrimento da tradição cristã restrita e do memorando operativo estrito defendido por outras facções. Somente em 1813, com o Ato de União formando a Grande Loja Unida da Inglaterra, as duas visões se harmonizaram, mesclando o intelectualismo de Anderson com a reverência tradicional dos Antigos.
Conclusão: A Pedra Angular da Nossa Fraternidade
Ao fecharmos as páginas deste documento tricentenário, compreendemos sua genialidade. As Constituições de Anderson não são um documento perfeito e certamente não são um livro de história acadêmica. Elas são um projeto de engenharia social e espiritual.
Ao transformar as lendas operativas em uma busca filosófica universal, Anderson e Desaguliers construíram um templo que o fogo não pode destruir e o tempo não pode corroer. Eles codificaram a linguagem da Geometria Sagrada para comunicar verdades morais eternas. A exigência de tolerância religiosa contida na Primeira Obrigação continua sendo um bálsamo essencial para a humanidade, mantendo a Ordem livre de divisões sectárias.
Ser um estudioso maçom hoje exige reconhecer a visão magistral de 1723. Mantenha os olhos na retidão de suas ações, utilize a tolerância para compreender seus irmãos e estude as ciências liberais com diligência. É assim que honramos as fundações lançadas na Goose and Gridiron há três séculos.
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Referências Bibliográficas:
- ANDERSON, James. The Constitutions of the Free-Masons. London: William Hunter, for John Senex at the Globe, and John Hooke at the Flower-de-luce, 1723.
- STEVENSON, David. The Origins of Freemasonry: Scotland’s Century, 1590-1710. Cambridge: Cambridge University Press, 1988.
- KNOOP, Douglas; JONES, G. P. The Genesis of Freemasonry: An Account of the Rise and Development of Freemasonry in its Operative, Accepted, and Early Speculative Phases. Manchester: Manchester University Press, 1947.
- YATES, Frances A. The Rosicrucian Enlightenment. London: Routledge & Kegan Paul, 1972.
- DESAGULIERS, J.T.; CHURTON, Tobias. Freemasonry: The Reality. London: Lewis Masonic, 2007. (Contextualização da contribuição da Royal Society para a fundação da Ordem Especulativa).
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