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O Juramento Maçônico Contraria a Bíblia? Uma Análise Cristã e Maçônica

Nota ao Leitor

Não me sinto à vontade para reproduzir ou discutir, de forma literal, situações específicas contidas nos rituais maçônicos, pois estes pertencem a um contexto iniciático que deve ser compreendido dentro de sua própria estrutura simbólica e pedagógica. A Maçonaria preserva seus ensinamentos por meio de uma tradição que valoriza a experiência individual e a reflexão progressiva, evitando expor seus elementos fora de seu contexto apropriado, onde poderiam ser mal interpretados ou desprovidos de seu verdadeiro significado.

No entanto, é inegável que determinadas partes do compromisso maçônico têm sido amplamente divulgadas na internet, muitas vezes acompanhadas de interpretações hostis ou equivocadas, especialmente por aqueles que procuram apresentar a Maçonaria como incompatível com a fé cristã. Entre as acusações mais frequentes está a alegação de que o compromisso assumido pelo maçom violaria diretamente os ensinamentos de Jesus Cristo, especialmente a passagem contida no Evangelho de Mateus, capítulo 5, versículo 34, onde Cristo afirma: “Eu, porém, vos digo que de maneira nenhuma jureis”.

Essa interpretação, quando analisada de forma superficial e descontextualizada, pode gerar preocupação legítima entre cristãos sinceros que desejam permanecer fiéis às Escrituras. Por essa razão, torna-se necessário examinar essa questão com seriedade, responsabilidade e respeito à verdade, considerando o contexto teológico das Escrituras, a natureza do compromisso maçônico e o significado simbólico e moral que ele representa.

O objetivo deste texto não é convencer ninguém a ingressar na Maçonaria, nem interferir nas convicções religiosas de qualquer indivíduo, mas esclarecer um mal-entendido que tem sido repetido com frequência, oferecendo uma análise fundamentada que permita ao leitor compreender a verdadeira natureza desse compromisso.

O Contexto Bíblico do Juramento nas Escrituras Sagradas

Para compreender corretamente as palavras de Jesus em Mateus 5:34, é necessário considerar o contexto em que elas foram pronunciadas. O Sermão da Montanha, onde essa passagem se encontra, é um ensinamento moral profundo que busca elevar o padrão ético dos ouvintes, indo além da simples observância formal da lei e enfatizando a pureza das intenções e a integridade do coração.

Na época de Cristo, havia se desenvolvido entre certos grupos religiosos o hábito de fazer juramentos frequentes, muitas vezes com o objetivo de conferir credibilidade a declarações cuja veracidade poderia ser questionada. Alguns juravam pelo céu, outros pela terra, outros por Jerusalém, criando uma complexa hierarquia de juramentos que permitia ao indivíduo evitar a responsabilidade moral ao alegar que seu juramento não havia sido feito diretamente em nome de Deus.

Cristo condenou essa prática, não porque todo compromisso solene fosse proibido, mas porque o uso indiscriminado de juramentos revelava uma falta de integridade interior. Quando a palavra de um homem é confiável, ela não necessita de juramentos constantes para ser aceita como verdadeira.

Essa interpretação é confirmada pelo fato de que o próprio Deus, nas Escrituras, utiliza juramentos solenes em determinadas ocasiões. Em Hebreus 6:13 está escrito:

“Porque, quando Deus fez a promessa a Abraão, como não tinha outro maior por quem jurar, jurou por si mesmo.”

Esse versículo demonstra que o juramento solene, quando utilizado de forma legítima e com propósito sério, não é apresentado nas Escrituras como algo inerentemente pecaminoso.

Da mesma forma, o apóstolo Paulo utiliza expressões que invocam Deus como testemunha de sua sinceridade, como em Romanos 1:9, onde afirma:

“Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito no evangelho de seu Filho, me é testemunha.”

Essas passagens indicam que o ensinamento de Cristo deve ser compreendido como uma condenação da frivolidade, da hipocrisia e da falta de integridade, e não como uma proibição absoluta de todo compromisso solene feito com sinceridade e responsabilidade.

A Natureza Moral e Filosófica do Compromisso Maçônico

Dentro da tradição maçônica, o compromisso assumido pelo iniciado não deve ser entendido como um juramento no sentido profano ou leviano, mas como uma obrigação moral solene que expressa a disposição do indivíduo de viver de acordo com princípios elevados de conduta.

A palavra obrigação, utilizada tradicionalmente na Maçonaria, deriva do latim obligatio, que significa vínculo moral ou dever assumido voluntariamente. Esse termo reflete com maior precisão a natureza do compromisso maçônico, que não busca impor uma autoridade externa sobre o indivíduo, mas fortalecer sua responsabilidade interior.

O maçom não promete algo contrário à sua fé, nem assume compromissos que o afastem de Deus. Ao contrário, ele reafirma sua intenção de viver de forma honrada, respeitando seus semelhantes, cultivando a verdade e praticando a justiça.

Albert Mackey, uma das maiores autoridades em simbolismo maçônico, escreveu:

“A obrigação maçônica é um compromisso voluntário assumido por um homem livre, fundamentado em sua honra e em sua responsabilidade moral perante Deus e sua própria consciência.”

Essa definição deixa claro que o compromisso maçônico não substitui a fé religiosa, mas reforça o compromisso moral que já deveria existir na vida de qualquer homem que busca viver de forma íntegra.

A Presença das Escrituras Sagradas na Tradição Maçônica

Um dos aspectos mais significativos da tradição maçônica é a presença do Volume da Lei Sagrada, que, nas lojas de tradição cristã, é representado pela Bíblia. Esse livro ocupa uma posição central, simbolizando a autoridade moral suprema e servindo como referência espiritual para os trabalhos da Loja.

Quando um candidato assume sua obrigação, ele o faz com a mão sobre o Volume da Lei Sagrada, demonstrando que seu compromisso é assumido em harmonia com sua fé em Deus, e não em oposição a ela.

Walter Leslie Wilmshurst, em sua obra The Meaning of Masonry, afirma:

“A Maçonaria não oferece uma nova revelação espiritual, mas convida o homem a aplicar em sua vida os princípios eternos que já foram revelados.”

Esse ensinamento reforça a compreensão de que a Maçonaria não pretende substituir a religião, mas incentivar o indivíduo a viver de acordo com os valores morais que sua própria fé já ensina.

O Significado Simbólico das Penalidades Tradicionais

Um dos elementos mais frequentemente mal interpretados por críticos da Maçonaria é a presença de penalidades simbólicas associadas ao compromisso maçônico. Essas expressões, quando analisadas fora de seu contexto simbólico, podem parecer severas ou literais, mas sua verdadeira natureza é alegórica.

Essas penalidades pertencem a uma linguagem simbólica herdada das antigas tradições iniciáticas e das corporações de construtores medievais, onde a honra e a palavra eram consideradas os fundamentos da confiança entre os homens.

Seu propósito não é ameaçar ou intimidar, mas enfatizar a importância da fidelidade, da discrição e da responsabilidade moral.

Albert Pike escreveu em Morals and Dogma:

“As penalidades simbólicas não devem ser compreendidas literalmente, mas como representações da gravidade moral de trair a própria honra e a confiança depositada.”

Assim como as parábolas bíblicas utilizam imagens simbólicas para transmitir ensinamentos espirituais, a linguagem maçônica utiliza símbolos para transmitir ensinamentos morais.

A Semelhança com Outros Compromissos Aceitos na Tradição Cristã

Ao longo da vida, o cristão participa de diversos compromissos solenes que são amplamente aceitos como legítimos. O casamento, por exemplo, envolve votos solenes feitos diante de Deus e de testemunhas. O batismo envolve promessas públicas de fé. A ordenação religiosa envolve compromissos formais de dedicação espiritual.

Esses compromissos não são considerados violações das Escrituras, mas expressões legítimas da responsabilidade moral e espiritual do indivíduo. Da mesma forma, o compromisso maçônico representa uma promessa solene de viver de acordo com princípios elevados de conduta.

A Harmonia Entre a Fé Cristã e o Compromisso Maçônico

Quando compreendido corretamente, o compromisso maçônico não entra em conflito com os ensinamentos de Cristo. Ele não exige que o indivíduo abandone sua fé, nem impõe crenças contrárias às Escrituras. Ele convida o homem a viver com integridade, a cultivar a verdade e a praticar a justiça.

Esses valores estão no coração do Evangelho. A Maçonaria não substitui a fé. Ela incentiva o homem a viver de forma mais consciente, mais responsável e mais fiel aos princípios morais que sua própria religião ensina.

Conclusão: A Verdadeira Natureza do Compromisso Maçônico

A obrigação maçônica, quando compreendida em seu verdadeiro contexto, não representa uma violação das Escrituras, mas um compromisso moral solene assumido com responsabilidade e sinceridade.

  • Ela não substitui a fé em Deus.
  • Ela não contradiz os ensinamentos de Cristo.
  • Ela reforça o compromisso do homem com a verdade, a justiça e a virtude.

Assim como as Escrituras ensinam que o homem deve viver com integridade diante de Deus, a Maçonaria convida o indivíduo a assumir conscientemente essa responsabilidade em sua própria vida.

O compromisso maçônico não é um afastamento da fé. É uma afirmação da responsabilidade moral que a fé exige.

Referências Bibliográficas e Fontes de Pesquisa

  • ANDERSON, James. The Constitutions of the Free-Masons. London: William Hunter, 1723.
  • (Documento fundamental que estabelece os princípios morais e a natureza das obrigações maçônicas.)
  • BÍBLIA SAGRADA. Tradução Almeida Revista e Corrigida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1995.
  • (Fonte primária para análise teológica sobre juramentos e compromissos solenes.)
  • MACKEY, Albert Gallatin. The Symbolism of Freemasonry. New York: Clark & Maynard, 1869.
  • (Referência clássica sobre o significado e a natureza da obrigação maçônica.)
  • PIKE, Albert. Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry. Charleston: Supreme Council, 1871.
  • (Análise filosófica da moral, da honra e dos compromissos dentro da tradição maçônica.)
  • PRESTON, William. Illustrations of Masonry. London, 1772.
  • (Obra histórica fundamental sobre a estrutura moral e simbólica da Maçonaria.)
  • WILMSHURST, Walter Leslie. The Meaning of Masonry. New York: Dover Publications, 2007.
  • (Interpretação filosófica moderna da Maçonaria como sistema de desenvolvimento moral e espiritual.)
  • DACHEZ, Roger. A History of Freemasonry. Paris: Presses Universitaires de France, 2003.
  • (Estudo histórico contemporâneo sobre a origem e natureza da Maçonaria.)

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