
A ritualística maçônica é composta por uma tapeçaria de gestos, sinais e palavras que, embora pareçam imutáveis, carregam consigo as marcas do tempo e as migrações culturais. Entre esses elementos, poucos despertam tanta curiosidade e, simultaneamente, tanta interpretação equivocada quanto o brado ritualístico do Rito Escocês Antigo e Aceito (R.E.A.A.): o Huzzé. Aclamação esta que é proferida em certos momentos dentro do Templo, funciona como um selo de unidade e uma afirmação de propósito. No entanto, para compreender sua verdadeira natureza, é preciso despir-se de explicações puramente místicas e mergulhar na história documental da Maçonaria e na filologia das línguas anglo-saxãs.
A Fenomenologia do Som no Espaço Sagrado
Antes de analisar a origem do termo, é essencial observar o papel da aclamação no ambiente iniciático. O silêncio é a regra de ouro na Maçonaria, servindo como o receptáculo onde a meditação e o autoaperfeiçoamento florescem. Quando esse silêncio é rompido de forma coletiva, o impacto psicológico e vibracional sobre os presentes é multiplicado. O Huzzé não surge como uma conversa ou um discurso, mas como uma emissão sonora bruta e organizada.
A prática da aclamação tripla no R.E.A.A. serve para cristalizar o trabalho realizado. Seja na abertura dos trabalhos, na recepção de uma autoridade ou na consagração de um novo iniciado, o som emitido pelos Irmãos atua como uma assinatura coletiva. Ele retira o maçom da passividade da observação e o coloca na posição de participante ativo da egrégora. Por meio desse brado, o indivíduo funde sua voz à vontade da Loja, reforçando o sentimento de pertencimento e a coesão do grupo.
A Jornada Etimológica: Do “Huzzah” ao “Huzzé”
A maior parte da confusão em torno desta palavra advém de tentativas de “esoterizar” sua origem sem o devido respaldo acadêmico. Muitas vezes, afirma-se erroneamente que o termo possui raízes árabes, hebraicas ou egípcias. Contudo, a análise comparativa de rituais e dicionários etimológicos aponta para um caminho muito mais direto e historicamente rastreável: as ilhas britânicas.
A palavra Huzzé é a transliteração fonética para o português do termo inglês Huzzah (ou Huzza). No inglês arcaico e moderno inicial, “Huzzah” era uma interjeição de alegria, triunfo e celebração. Sua primeira aparição literária remonta ao século XVII, sendo amplamente documentada como o grito de guerra e de celebração dos marinheiros britânicos. Relatos da época descrevem que, quando um navio vitorioso entrava no porto ou quando uma tarefa hercúlea era concluída no mar, os marujos se reuniam no convés para bradar o “Huzzah”.
Com o tempo, a expressão migrou do ambiente naval para o contexto militar e, posteriormente, para o popular. Tornou-se o equivalente ao nosso “Viva!” ou ao “Hooray!” contemporâneo. No teatro de William Shakespeare e na poesia de Alexander Pope, encontramos o termo utilizado para denotar uma aclamação pública de alta intensidade. Portanto, ao ser adotado pela Maçonaria, o Huzzé trouxe consigo essa carga de vitória e reconhecimento público de uma virtude ou conquista.
A Transmissão para o Continente e a Influência Jacobita
A transição da aclamação profana para o rito maçônico ocorreu predominantemente no solo francês, durante o século XVIII. Este foi o período de gestação do que viria a ser o Rito Escocês Antigo e Aceito. É necessário lembrar que a Maçonaria “Escocesa” deve muito de seu desenvolvimento aos oficiais militares e exilados jacobitas — apoiadores da Casa de Stuart que se refugiaram na França após as revoltas na Grã-Bretanha.
Esses militares levaram consigo seus costumes de caserna e de navio. A aclamação “Huzzah”, tão comum entre as tropas britânicas e escocesas da época, foi incorporada aos rituais franceses. No entanto, como a língua francesa possui regras fonéticas distintas, o “Huzzah” (onde o ‘h’ é aspirado e o ‘a’ é aberto) sofreu uma mutação sonora para se tornar o “Houzzai” ou “Houzzé”. Quando esses rituais foram traduzidos e adaptados para o português, a grafia consolidou-se como Huzzé, mantendo a sonoridade que melhor expressava a energia da aclamação original.
O Huzzé nos Documentos Históricos do R.E.A.A.
Para o estudioso que busca provas documentais, a evolução da aclamação pode ser vista na cronologia dos rituais. No início do século XIX, os rituais franceses já apresentavam a expressão como a aclamação característica dos graus simbólicos e filosóficos do Rito Escocês.
Em 1820, o ritual do Grande Oriente da Bélgica já trazia a forma “Houzzai”. Nos Estados Unidos, o grande reformador do rito, Albert Pike, manteve a tradição na sua revisão monumental da Jurisdição Sul. Pike, um homem de vasta cultura linguística, reconhecia a origem da palavra no antigo brado de celebração, utilizando-a para pontuar as cerimônias que exigiam uma demonstração de regozijo. Albert Mackey, em sua Encyclopedia of Freemasonry (1873), também dedica espaço para esclarecer que o Huzzé é a aclamação oficial do R.E.A.A., diferenciando-a do “Vivat” utilizado em outros sistemas.
Diferenciação entre Ritos: Unidade na Diversidade
A Maçonaria é rica em sua diversidade ritualística, e as aclamações são excelentes marcadores dessa distinção. Cada rito possui um “clima” ou uma tonalidade espiritual diferente, refletida na palavra escolhida para a aclamação:
- Rito Escocês Antigo e Aceito: Utiliza o Huzzé, focando na energia da vitória sobre o vício e na exaltação da virtude.
- Rito de York (Tradição Inglesa): Geralmente utiliza o sinal e a batida, ou em contextos específicos, o Huzza em sua forma original.
- Rito Moderno (Francês): Aclama com as palavras “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, reforçando seu caráter cívico e iluminista.
- Rito Adonhiramita: Utiliza o termo latino Vivat, que significa “Que viva!”, remetendo à longevidade das instituições e princípios.
Essa comparação demonstra que o Huzzé não é uma palavra arbitrária, mas uma escolha que define a identidade do R.E.A.A. enquanto rito de forte influência militar e cavalheiresca em sua formação histórica.
Simbolismo e Aplicação Prática em Loja
Dentro de uma sessão maçônica, a execução do Huzzé deve seguir uma coreografia específica. Não se trata apenas de gritar a palavra, mas de fazê-lo em conjunto com o sinal de aclamação. O ritmo é essencial. Normalmente, o Venerável Mestre comanda a aclamação, e os Irmãos respondem em uníssono.
E aqui, vai uma interpretação minha, certo? O primeiro “Huzzé” pode ser interpretado como uma saudação ao reconhecimento da obra realizada pelos homens na construção do Templo social. O segundo “Huzzé” eleva-se ao plano intelectual e moral, celebrando a sabedoria que guia as ações da Loja. O terceiro e último brado é a consagração ao plano espiritual, uma entrega ao Grande Arquiteto do Universo.
Além disso, o Huzzé emite uma vibração sonora produzida por dezenas de homens bradando a mesma palavra na mesma frequência, desta forma criando um fenômeno físico de ressonância, que ajuda a dissipar qualquer resquício de individualismo ou discórdia, unindo os presentes em um único corpo vibratório.
Mitos Comuns e Erros de Interpretação
É imperativo combater as falácias que cercam o Huzzé para que o maçom não se torne um propagador de “pseudociência ritualística”.
Um dos erros mais comuns é associar o termo ao árabe “Uzza” ou “Al-Uzza”, uma das divindades pré-islâmicas. Não existe qualquer ligação documental entre o culto às deusas árabes e a formação do R.E.A.A. no século XVIII francês. Outra interpretação equivocada é sugerir que a palavra seria um anagrama de termos hebraicos ligados à força ou à glória. Embora o hebraico seja uma língua fundamental na simbologia maçônica, a origem do Huzzé é puramente europeia.
Também é necessário cuidado ao atribuir ao Huzzé propriedades mágicas de “abertura de portais”. A Maçonaria é uma escola de filosofia moral e simbolismo, não um sistema de magia. O valor da aclamação é psicológico, histórico e de egrégora, funcionando como um gatilho mental para a solenidade e a união, e não como uma fórmula mágica que altera as leis da física.
A Importância do Estudo na Prática Ritualística
Quando um Irmão profere o Huzzé sabendo que aquele som foi bradado por marinheiros que enfrentavam tempestades, por soldados que defendiam seus ideais e por gerações de maçons que lutaram pela liberdade de pensamento, o ato ganha uma nova dimensão. A ritualística deixa de ser uma repetição mecânica para se tornar uma homenagem viva à história humana.
O conhecimento da origem militar e naval da palavra acrescenta uma camada de “força” ao significado da palavra. Se a Maçonaria é uma “Arte Real”, ela exige de seus praticantes a disciplina e o vigor representados por esse brado. O Huzzé nos lembra que, apesar do caráter especulativo da Ordem, nossas raízes estão na ação, na construção e na vitória sobre os obstáculos que impedem o progresso da humanidade.
Conclusão e Reflexão Final
O Huzzé é muito mais do que um ruído ritual. Ele é a ponte sonora que conecta o passado operativo e militar da Maçonaria com o presente especulativo. Ao longo deste estudo, ficou claro que sua etimologia no “Huzzah” inglês não diminui sua importância; pelo contrário, a enobrece ao vinculá-la a momentos de triunfo e celebração da vida.
Cada vez que os obreiros se levantam em Loja e soltam suas vozes nesse brado triplo, eles estão reafirmando que a Maçonaria é uma instituição vibrante, capaz de unir homens de diferentes épocas, credos, raças, sob o mesmo teto e sob a mesma aclamação. Compreender o Huzzé é compreender a própria energia do Rito Escocês Antigo e Aceito: um rito de ação, de luta pela luz e de celebração da verdade encontrada.
Portanto, que cada Huzzé proferido seja consciente. Que seja carregado com a intenção de quem sabe de onde veio e para onde caminha. Que o eco desse brado dentro do Templo ressoe na alma de cada Irmão como um chamado à vigilância e à constante construção daquela catedral invisível que é o caráter humano.
Referências Bibliográficas
- ASLAN, Nicola. Dicionário de Maçonaria. Rio de Janeiro: Editora Aurora, 1974.
- BOUCHER, Jules. A Simbólica Maçônica. São Paulo: Pensamento, 1948.
- CAMINO, Rizzardo da. Dicionário Maçônico. São Paulo: Madras, 2013.
- HOLMES, Edward Richard. Redcoat: The British Soldier in the Age of Horse and Musket. London: HarperCollins, 2001. (Para contexto sobre o uso militar do “Huzzah”).
- MACKEY, Albert G. Encyclopedia of Freemasonry and its Kindred Sciences. Philadelphia: Moss & Company, 1873.
- NAUDON, Paul. História Geral da Maçonaria. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
- PIKE, Albert. Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry. Charleston: L.H. Jenkins, 1871.
- XIMENES, J. Ritos e Rituais: A Evolução da Aclamação. Lisboa: Edições Delta, 1995.
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HUZZÉ! HUZZÉ! HUZZÉ!
Que o Grande Arquiteto do Universo nos fortaleça na Sabedoria, na Força e na Beleza.
