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As Primeiras Igrejas Protestantes no Brasil e a Relação com a Maçonaria

Por Thiago Lima – Círculo de Estudos Maçônicos do Brasil (CEMB)

A relação histórica entre Maçonaria e o surgimento das primeiras igrejas protestantes no Brasil. Uma análise profunda sobre fé cristã, liberdade religiosa e o papel dos maçons no estabelecimento do protestantismo brasileiro no século XIX.
Maçonaria e as primeiras igrejas protestantes no Brasil: uma representação histórica da colaboração entre maçons e pioneiros do protestantismo no século XIX, em um contexto de fé cristã, liberdade religiosa e formação das primeiras comunidades evangélicas no país.

Introdução — Protestantes, Liberdade Religiosa e Maçonaria

A história do protestantismo no Brasil é muito mais complexa do que simplesmente o estabelecimento de denominações religiosas estrangeiras no século XIX. Em um país que, até 1889, tinha religião oficial — o catolicismo romano — e restrições legais severas para cultos públicos não-católicos, o protestantismo encontrou grandes obstáculos em sua trajetória inicial.

Nesse contexto histórico, a Maçonaria brasileira — instituição fraternal com tradição liberal e ideias de liberdade individual — desempenhou um papel importante em apoiar, facilitar e, em muitos casos, colaborar diretamente com missionários protestantes no país. Essa colaboração incluiu desde o apoio ideológico à liberdade religiosa até a cessão de espaços físicos (templos maçônicos e salões) para cultos e eventos públicos quando templos oficiais não eram permitidos por lei.

Ao longo das décadas finais do século XIX, protestantes e maçons compartilhavam um objetivo comum: combater o monopólio religioso do catolicismo e promover reformas sociais que impulsionassem a educação, cidadania e a separação entre Estado e Igreja.

Este texto aborda a história dos primeiros protestantes no Brasil e a relação com a Maçonaria, destacando como essa aliança influenciou o estabelecimento de igrejas — especialmente as primeiras presbiterianas e batistas — em um ambiente hostil à diversidade religiosa.

Comunidade protestante no Brasil do século XIX reunida discretamente em área rural paulista, com colonos segurando Bíblias em um ambiente de fé e resistência.
Cena histórica do Brasil do século XIX retratando uma pequena comunidade protestante reunida discretamente no interior paulista, símbolo de fé, resistência e identidade religiosa.

1. O Brasil Imperial: Contexto de Intolerância Religiosa e Impasse Legal

1.1 Igreja Católica como Religião Oficial

Até a Proclamação da República em 1889, o Brasil vivia sob a Constituição de 1824, que declarava a Igreja Católica Apostólica Romana como a religião oficial do Estado. Essa constituição permitia que outras crenças fossem professadas, mas limitava severamente a construção de templos e cultos públicos que não fossem católicos.

Embora a liberdade pessoal de crença fosse garantida, o exercício público de cultos protestantes era praticamente proibido. Isso significava que missionários e comunidades protestantes precisavam encontrar alternativas para se organizar, cultuar e evangelizar.

1.2 Estratégias de Sobrevivência Religiosa

Diante dessas restrições legais:

  • Protestantes reuniam-se em casas particulares;
  • Cultos espirituais eram realizados em espaços discretos e isolados;
  • Em várias localidades, culturas religiosas encontraram abrigo em salões maçônicos, cedidos por membros da Maçonaria que simpatizavam com o movimento protestante, ou por maçons que eram eles mesmos protestantes.

O simples fato de templos protestantes não poderem ser erigidos publicamente fez com que a colaboração maçônica tivesse relevância prática não apenas no discurso ideológico de liberdade, mas também no apoio material e institucional.

2. Protestantes e Maçons: Um Encontro de Ideias Liberais

2.1 Liberalismo, Modernidade e Oposição ao Ultra-Catolicismo

Imigrantes americanos do século XIX chegando ao interior de São Paulo, famílias protestantes com roupas tradicionais em fazendas de algodão durante o Brasil Império.
Chegada de imigrantes americanos protestantes ao interior paulista no século XIX, marcando um período de esperança, reconstrução e expansão agrícola durante o Brasil Império.

A Maçonaria, especialmente em sua vertente liberal, entendia que a modernização brasileira exigia o rompimento com estruturas de poder tradicionalmente ligadas ao catolicismo. Maçons viam no protestantismo uma forma de promover educação, ética e desenvolvimento social, valores associados à modernidade inspirada pelos estados protestantes europeus e norte-americanos.

Essa percepção levou muitos líderes maçônicos a oferecerem sua rede de contatos, influência social e, em alguns casos, espaços físicos para favorecer a chegada e organização de comunidades protestantes no Brasil.

Uma das maiores razões para essa atitude era estratégica e política: fortalecer a secularização do Estado e romper o monopólio católico, que estava ligado ao poder político tradicional — algo que unia ideologicamente maçons e protestantes.

2.2 Influência Maçônica no Protestantismo — Perspectiva Histórica

Segundo historiadores que analisaram a temática, os missionários protestantes que chegaram entre 1860 e 1900 no Brasil encontraram na Maçonaria uma espécie de “proteção social e ideológica” que lhes permitiu estabelecer bases e contatos sociais.

Além de defender a liberdade religiosa politicamente, alguns maçons ligados aos primeiros protestantes apoiaram a criação de jornais, propagandas e debates públicos com foco na reforma religiosa e crítica ao ultra-catolicismo — algo que ajudou essa comunidade crescente a ganhar visibilidade mesmo antes da Proclamação da República.

3. Primeiros Protestantes e Participação Maçônica nas Igrejas Históricas

3.1 Igreja Presbiteriana e Maçonaria

Culto evangélico realizado no salão de banquetes de uma loja maçônica no século XIX, com homens e mulheres reunidos de forma respeitosa ao redor de uma Bíblia aberta, simbolizando fraternidade e tolerância religiosa.
Cena histórica representando um culto evangélico realizado no salão de banquetes de uma loja maçônica no século XIX, fora do templo ritualístico, destacando convivência, fraternidade e liberdade religiosa.

Quando o missionário Ashbel Green Simonton chegou ao Brasil em 1859, ele encontrou uma comunidade alemã protestante, mas sem um espaço organizado para cultos.

Na falta de templos permitidos, Simonton tentou providenciar um lugar para as reuniões religiosas. Segundo registros históricos, ele negociou com a Loja Maçônica Amizade em São Paulo, e os maçons insistiram em oferecer o salão da loja para cultos gratuitamente, embora Simonton inicialmente não pudesse arcar com custos.

Esse episódio demonstra claramente que a Maçonaria local estava disponível e disposta a colaborar com a organização de cultos protestantes em um contexto legal restritivo.

3.2 Igreja Batista e Apoio Maçônico em Santa Bárbara do Oeste

Outro caso marcante foi em Santa Bárbara do Oeste (SP), onde missionários e imigrantes norte-americanos estabeleceram a primeira Igreja Batista no Brasil, em 1871, liderada por pastores como Richard Ratcliff e Robert Porter Thomas.

Muitos membros da nova Igreja Batista da cidade também eram maçons, o que criou uma intersecção muito forte entre a Maçonaria local e a nova congregação protestante.

Segundo relatos históricos e documentos, o primeiro pastor batista brasileiro — Antônio Teixeira de Albuquerque — foi batizado por um pastor maçom e depois consagrado ao ministério no salão de uma loja maçônica, ilustrando o papel direto das estruturas maçônicas na formação institucional da igreja.

Esse evento em Santa Bárbara não foi uma colaboração circunstancial ou isolada, mas sim parte de um cenário em que maçons locais eram membros ativos de comunidades protestantes, tomando parte importante no desenvolvimento institucional dessas igrejas.

Consagração do primeiro pastor batista brasileiro, Antônio Teixeira de Albuquerque, no final do século XIX, com imposição de mãos por pastores protestantes e Bíblia aberta em espaço anexo a uma loja maçônica.
Cena histórica do final do século XIX representando a consagração do primeiro pastor batista brasileiro, realizada em ambiente externo anexo a uma loja maçônica, símbolo de fé cristã, fraternidade e liberdade religiosa.

4. Maçonaria, Espiritualidade e Missões Educacionais

4.1 Educação Protestante e Rede Maçônica

Conforme pesquisas acadêmicas, parte do apoio maçônico aos protestantes não se restringiu a espaços físicos de culto: missionários que implantaram igrejas, plantaram escolas missionárias que recebiam apoio indireto da rede maçônica, especialmente em debates públicos, imprensa e educação moderna.

Essas escolas foram consideradas “lugares de modernidade”, onde se promoviam valores éticos, científicos e pedagógicos alinhados tanto à missão protestante quanto aos ideais maçônicos de progresso e educação racional.

4.2 Dinâmicas Pós-República

Após a Proclamação da República em 1889, quando a separação entre Igreja e Estado foi instituída, as igrejas protestantes ganharam muito mais liberdade para construir templos e expandir suas atividades.

Nesse novo cenário, a relação entre Maçonaria e protestantismo continuou, não apenas ideologicamente, mas também política e socialmente, pois muitos pastores e líderes congregacionais mantiveram vínculos maçônicos ou colaboraram em causas liberais e educacionais.

5. Conclusão — Uma Contribuição Complexa e Interligada

A trajetória das primeiras igrejas protestantes no Brasil deve ser entendida não apenas como uma história religiosa, mas também como uma narrativa social e política marcada pela colaboração entre movimentos que buscavam reformas sociais, liberdade individual e emancipação institucional.

A Maçonaria, com seu compromisso declarado com a liberdade de pensamento, separação entre religião e Estado, e promoção de educação racional, ofereceu apoio crucial — moral, institucional e, em alguns casos, material — para que protestantes pudessem estabelecer igrejas e congregações em um país que lhes era hostil no início.

Essa relação não foi unidimensional — envolveu interesses políticos comuns, trocas sociais e ideológicas, bem como colaborações diretas, especialmente no século XIX, quando o protestantismo ainda estava fundando suas primeiras bases no Brasil.

Este artigo foi elaborado com base em fontes acadêmicas, documentos históricos, pesquisas universitárias e obras reconhecidas da historiografia brasileira, buscando apresentar uma análise histórica equilibrada sobre a relação entre a Maçonaria e as primeiras igrejas protestantes no Brasil.

Considerações Pessoais: Fé Cristã, Maçonaria e um Lamento Necessário

Composição simbólica da Maçonaria e da fé cristã no Brasil, com Bíblia aberta, esquadro e compasso iluminados, representando liberdade religiosa e espiritualidade.
Bíblia aberta ao lado do esquadro e compasso, simbolizando a relação entre Maçonaria, fé cristã e liberdade religiosa na formação espiritual e cultural do Brasil.

Como autor deste texto, faço questão de deixar claro que esta seção representa minha opinião pessoal, construída a partir da minha vivência, estudo histórico e experiência espiritual. Não se trata de um ataque a nenhuma denominação religiosa, mas de uma reflexão sincera e respeitosa, feita à luz da consciência cristã e do compromisso com a verdade histórica.

É impossível estudar com honestidade a história do protestantismo no Brasil — como vimos ao longo deste artigo — sem reconhecer o papel fundamental que a Maçonaria exerceu na defesa da liberdade religiosa, no acolhimento dos primeiros protestantes e no apoio concreto para a organização das primeiras igrejas evangélicas em solo brasileiro. Ainda assim, causa profundo lamento constatar que, atualmente, a maioria das igrejas evangélicas e até mesmo a Igreja Católica adotam uma postura oficial contrária à participação de seus membros na Maçonaria.

Esse posicionamento contemporâneo contrasta de forma evidente com a própria Escritura, que nos ensina que o julgamento deve ser feito com prudência e discernimento:

“Portanto, pelos seus frutos os conhecereis.” (Mateus 7:16)

Muitos dos pioneiros do protestantismo no Brasil — pastores, missionários e líderes leigos — eram maçons, e não viram nisso qualquer contradição com sua fé cristã. Pelo contrário: enxergavam na Maçonaria valores como moralidade, caridade, liberdade de consciência e aperfeiçoamento humano, princípios que dialogavam diretamente com a ética cristã, expressa, por exemplo, no ensino apostólico:

“Antes, rejeitamos as coisas ocultas da vergonha, não andando com astúcia nem adulterando a palavra de Deus.” (2 Coríntios 4:2)

Falo aqui também a partir de um lugar pessoal: sou Maçom e sou Evangélico. Não vejo conflito entre minha fé em Cristo e minha participação na Maçonaria. Não abandono o Evangelho, não relativizo minha crença e não substituo minha fé cristã por qualquer outra filosofia. Minha confissão continua sendo a mesma:

“Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo.” (1 Coríntios 3:11)

Ao contrário, entendo que minha caminhada maçônica reforça valores éticos que procuro viver também como cristão, como a prática da caridade, da retidão e do amor ao próximo — princípios claramente ensinados por Jesus:

“Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus.” (Mateus 5:16)

Por isso, lamento que o debate atual, em muitas igrejas, seja marcado mais por preconceito, desinformação e repetições de discursos importados, do que por uma análise histórica séria, teológica equilibrada e pastoralmente responsável. Em grande parte dos casos, a rejeição à Maçonaria não se baseia em estudo aprofundado, mas em generalizações e interpretações que não consideram o princípio bíblico do exame cuidadoso:

“Examinai tudo. Retende o bem.” (1 Tessalonicenses 5:21)

Esse tema, inclusive, já foi tratado de forma mais detalhada em uma publicação específica aqui no blog, na qual busquei responder, de maneira direta, a uma das perguntas mais recorrentes sobre o assunto:

👉 “Estou negando a Cristo por ser Maçom? A verdade sobre fé cristã e Maçonaria”
Disponível em:

Nesse artigo, aprofundo a discussão sobre fé cristã, identidade espiritual e Maçonaria, deixando claro que ser Maçom não significa negar a Cristo, nem abandonar os fundamentos do cristianismo histórico. Pelo contrário, é possível viver a fé cristã de forma íntegra, consciente e comprometida, lembrando que:

“O Senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o Senhor vê o coração.” (1 Samuel 16:7)

Finalizo esta reflexão reafirmando meu respeito às igrejas e às suas decisões institucionais, mas também reafirmando meu direito — como cristão, cidadão e Maçom — de lamentar esse afastamento histórico, que ignora o passado e empobrece o diálogo. A história mostra que fé cristã e Maçonaria já caminharam juntas em momentos decisivos da formação religiosa e social do Brasil. Talvez seja tempo de revisitarmos esse debate com mais serenidade, lembrando que:

“Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.” (Mateus 5:9)

Referências

AZZI, Riolando. A Igreja Católica no Brasil: história e doutrina. Petrópolis: Vozes, 2008.

CARNEIRO, Luiza (Lua) C. Maçonaria, política e liberdade. São Paulo: Editora UNESP, 2015.

CBN – RÁDIO GLOBO. Protestantes chegaram ao Brasil a partir do século XIX. Disponível em: https://cbn.globoradio.globo.com/especiais/fe-protestante-500-anos-de-historia/2017/10/31/PROTESTANTES-CHEGARAM-AO-BRASIL-A-PARTIR-DO-SECULO-XIX.htm. Acesso em: 13 jan. 2026.

DREHER, Martin N. História do protestantismo no Brasil. São Leopoldo: Sinodal, 2002.

HÜCKER, Thiago. Protestantismo e espaços de culto no Brasil imperial. Revista Brasileira de História das Religiões, Maringá, 2013.

JONES, Judith McKnight. O soldado descansa. São Paulo: Cultura Cristã, 1998.

OLIVEIRA, Bet Antunes de. Centelha em restolho seco. Rio de Janeiro: JUERP, 1985.

PROBER, Kurt. Imigração americana e maçonaria em Santa Bárbara do Oeste. Revista A Bigorna, São Paulo, 1986.

SWANSON, Peter. The history of craft masonry in Brazil. São Paulo, 1928.

UNESP – Universidade Estadual Paulista. Maçonaria, religião e política no Brasil do século XIX. Araraquara: Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, 2014.

UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas. Protestantismo e modernidade no Brasil. Campinas, 2006. Disponível em: https://unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/maio2006/ju322pag4a.html. Acesso em: 13 jan. 2026.

WINETZKI, Michael. Maçonaria e protestantismo no Brasil do século XIX. Disponível em: https://www.michaelwinetzki.com.br. Acesso em: 13 jan. 2026.

Chamada para Reflexão e Diálogo

“Antes de formar uma opinião, é preciso conhecer a história.”

Se este artigo contribuiu para ampliar sua compreensão histórica, espiritual ou despertou reflexões sinceras sobre a relação entre fé cristã e Maçonaria, convido você a não encerrar essa leitura aqui.

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