
Nesta segunda parte, avançamos pelos Arcanos Maiores, do Imperador à Morte. Analisamos a geometria sagrada, as conexões com o Apocalipse, a numerologia oculta e a interpretação esotérica de eventos históricos e sociais sob a luz do Tarô.
Arcano IV – O Imperador (The Emperor)

O Imperador (IV) é o quarto trunfo, ou carta dos Arcanos Maiores, nos baralhos tradicionais de tarô. Ele é utilizado tanto em jogos de cartas quanto na adivinhação. Como símbolo de autoridade, estabilidade e estrutura, representa ordem e disciplina, em contraste com as qualidades intuitivas e nutridoras da Imperatriz.
O Imperador está associado à energia masculina, à liderança e à aplicação da lei e da tradição. Na astrologia, ele é ligado a Áries, um signo cardinal de fogo regido por Marte, o que reforça suas características de iniciativa, ação e poder.
Simbolismo e Imagética
O Imperador é tradicionalmente retratado sentado em um trono de pedra, símbolo de estabilidade e autoridade inabalável. Sua postura imponente transmite controle, disciplina e domínio. A armadura que veste sugere força, proteção e prontidão para o confronto, reforçando seu papel como figura de poder e comando.
O trono costuma ser adornado com cabeças de carneiro, símbolo direto de Áries e de suas associações com liderança, determinação e impulso inicial. Em suas mãos, o Imperador segura um cetro, representando domínio e controle, e um orbe, símbolo de sua autoridade sobre o mundo material.
Suas vestes vermelhas enfatizam paixão, vitalidade e natureza decisiva, enquanto o cenário montanhoso ao fundo transmite firmeza, resistência e permanência diante das adversidades.
Interpretação
Quando surge na posição normal, o Imperador simboliza liderança, responsabilidade e estrutura. Indica estabilidade, proteção e um período de ação estratégica guiada pela disciplina. Essa carta aparece com frequência em leituras relacionadas à carreira, às finanças e à governança, reforçando a presença de uma influência sólida, estabelecida e autoritária. Também pode representar uma figura paterna ou uma força externa que oferece direção, ordem e segurança.
Na posição invertida, o Imperador pode indicar controle excessivo, rigidez ou tirania. Pode apontar para abuso de poder, conflitos com figuras de autoridade ou dificuldade em estabelecer uma estrutura saudável. Em alguns casos, sinaliza fraqueza na tomada de decisões ou resistência a uma ordem necessária, alertando para a teimosia, a inflexibilidade ou uma liderança opressiva.
Relação com Outras Cartas dos Arcanos Maiores
O Imperador e a Imperatriz, juntos, formam um equilíbrio entre estrutura e criatividade, governo e cuidado. Enquanto a Imperatriz representa o fluxo orgânico da vida e a intuição, o Imperador estabelece limites, ordem e estabilidade.
Em comparação com o Hierofante, que simboliza a lei institucional e a orientação espiritual, o Imperador encarna a autoridade mundana e a aplicação prática das regras estabelecidas. Já em contraste com o Louco, que representa liberdade e potencial ilimitado, o Imperador introduz forma, disciplina e direção, moldando a energia bruta em uma força organizada e eficaz.
Perspectivas Culturais e Psicológicas
Sob uma perspectiva psicológica, o Imperador corresponde ao arquétipo junguiano do Governante, representando autoridade, organização e estrutura no inconsciente coletivo. Mitologicamente, ele é frequentemente associado a divindades ligadas à lei, à ordem e ao domínio, como Zeus, Júpiter, Odin e Osíris, figuras reconhecidas por sua liderança e poder regulador.
No simbolismo político, o Imperador reflete as dinâmicas do poder e da governança, ilustrando a linha tênue entre liderança forte e tirania, entre autoridade construtiva e opressão.
Arcano V – O Hierofante (O Papa / O Sumo Sacerdote)

O Hierofante (V), também representado alternativamente como O Papa ou O Sumo Sacerdote (em contraponto à Alta Sacerdotisa), é a quinta carta dos Arcanos Maiores nos baralhos ocultistas de tarô utilizados na adivinhação.
Nos baralhos mais antigos, como o Tarô de Marselha, ele é identificado diretamente como o Papa. Já em baralhos modernos, como o Tarô Rider–Waite, utiliza-se o termo Hierofante, derivado do grego antigo hierophántēs (ἱεροφάντης), que designa aquele que conduz os fiéis à presença daquilo que é considerado sagrado.
Descrição e Simbolismo
Em muitos baralhos modernos, o Hierofante é representado com a mão direita erguida em um gesto de bênção ou benedicção, com dois dedos apontando para o céu e dois para baixo, formando uma ponte simbólica entre o Céu e o Inferno. Esse gesto é reminiscente da ponte criada pelo corpo do Enforcado, reforçando seu papel como mediador entre planos.
O Hierofante é, portanto, um verdadeiro pontífice, no sentido literal do termo: aquele que constrói a ponte entre a divindade e a humanidade. Em sua mão esquerda, ele segura uma cruz tripla, símbolo de autoridade espiritual e tradição. Sua tiara apresenta três pregos projetando-se, representando a crucificação de Jesus.
A figura do Hierofante é tipicamente masculina, mesmo em baralhos que adotam uma abordagem feminista do tarô, como o Tarô Motherpeace. Em algumas tradições, ele também é conhecido como o Mestre da Sabedoria.
Na maioria das representações iconográficas, o Hierofante aparece sentado em um trono entre dois pilares, que simbolizam a Lei e a Liberdade, ou, conforme outras leituras, a obediência e a desobediência. Ele usa uma tiara papal, e as chaves do Céu encontram-se a seus pés, reforçando sua função de guardião do acesso ao sagrado.
Frequentemente, o Hierofante é mostrado acompanhado por fiéis, já que seu título alternativo é o Papa ou, em algumas tradições, Júpiter. Esses fiéis costumam ser representados como um par de sacerdotes tonsurados, vestindo casulas adornadas separadamente com motivos de lírios e rosas. A carta também é conhecida como O Sumo Sacerdote, em contraponto direto à Alta Sacerdotisa, que por sua vez é chamada em algumas tradições de “A Papisa”.
Interpretação
O Hierofante simboliza retidão, sacralidade, ordem hierárquica, ortodoxia e retidão moral. Trata-se de uma figura essencialmente exotérica, em contraste com o caráter esotérico da Alta Sacerdotisa.
Quando aparece na posição invertida, o Hierofante pode representar heterodoxia, originalidade e ingenuidade, indicando ruptura com tradições estabelecidas ou questionamento de normas institucionais.
Significados Divinatórios segundo A. E. Waite
De acordo com The Pictorial Key to the Tarot (1910), de A. E. Waite, a carta do Hierofante possui as seguintes associações divinatórias:
O Hierofante (V):
Casamento, aliança, cativeiro, servidão; segundo outra interpretação, misericórdia e bondade; inspiração; o homem a quem o consulente recorre.
Invertido:
Sociedade, bom entendimento, concórdia, excesso de bondade, fraqueza.
Correspondência Astrológica
Na astrologia, o Hierofante é associado ao signo Touro, um signo feminino e fixo do elemento terra, e ao seu planeta regente, Vênus, reforçando seus vínculos com valores, tradição, estabilidade e devoção.e o lado de lá (como Allan Kardec fez com dignidade para provar essa realidade), mas não para adivinhação. Adivinho, na maioria, é “chutador” e picareta. Não tem inspiração búdica. Fazer profecias óbvias (como “vai morrer um estadista idoso” ou “vai cair um avião sem manutenção na África”) é lógica, não profecia.
Arcano VI – Os Enamorados (The Lovers)

Os Enamorados (VI) é o sexto trunfo, ou carta dos Arcanos Maiores, na maioria dos baralhos tradicionais de tarô. Ele é utilizado tanto em jogos de cartas quanto na adivinhação.
Interpretação
De acordo com The Pictorial Key to the Tarot (1910), de A. E. Waite, a carta dos Enamorados apresenta as seguintes associações divinatórias:
Os Enamorados (VI):
Atração, amor, beleza, provações superadas.
Invertida:
Fracasso, planos tolos. Segundo outra interpretação, casamento frustrado e contrariedades de todos os tipos.
Em diversas tradições, Os Enamorados representam relacionamentos e escolhas. Sua aparição em uma leitura indica a necessidade de tomar uma decisão importante relacionada a um relacionamento existente, a uma tentação do coração ou à escolha entre parceiros em potencial.
Frequentemente, algum aspecto da vida do consulente precisará ser sacrificado. Um estilo de vida solteiro pode ser abandonado em favor de um relacionamento — ou o inverso. Em outras situações, um parceiro pode ser escolhido enquanto outro é rejeitado. Independentemente da decisão, ela não deve ser tomada de forma leviana, pois suas consequências tendem a ser duradouras.
Correspondências Astrológicas e Simbólicas
Os Enamorados estão associados ao signo de Gêmeos e, em alguns baralhos, a carta é inclusive chamada de Os Gêmeos. Outras correspondências incluem:
- Elemento: Ar
- Planeta regente: Mercúrio
- Letra hebraica: ז (Zayin)
Essas associações reforçam o tema da dualidade, da comunicação e das escolhas conscientes.
Símbolos no Baralho Rider–Waite
No baralho Rider–Waite, a iconografia da carta difere significativamente das representações mais antigas. Em vez de um casal recebendo a bênção de uma figura nobre ou clerical, a carta retrata Adão e Eva no Jardim do Éden, observados por um anjo, geralmente identificado como o arcanjo Rafael.
Ao reduzir o número de figuras humanas de três para duas, Waite reforçou simbolicamente a correspondência da carta com o signo de Gêmeos.
Os principais símbolos presentes na carta incluem:
- Arcanjo Rafael, como mediador e guardião
- Árvore da Vida atrás de Adão, com doze frutos semelhantes a chamas
- Árvore do Conhecimento atrás de Eva, com uma serpente enrolada em seu tronco
Esses elementos remetem diretamente ao mito da escolha primordial, do livre-arbítrio e das consequências decorrentes da decisão consciente.
Combinações Significativas com Outras Cartas
- Os Enamorados + Três de Ouros: indicam esforços colaborativos que levam a relações de trabalho significativas. A harmonia nas escolhas de parceria favorece empreendimentos criativos e produtivos.
- Os Enamorados + Dois de Copas: apontam para a necessidade de uma decisão relacionada a um relacionamento — romântico ou não — e indicam a possibilidade de uma conexão profunda, satisfatória e gratificante com alguém que compartilha valores e desejos semelhantes.
Arcano VII: O Carro (The Chariot)

Uma das cartas mais ricas simbolicamente e, ao mesmo tempo, uma das mais misteriosas do tarô. O Carro foge da simbologia óbvia. No Tarô Rider–Waite, a carruagem é guiada por duas esfinges; no Tarô de Marselha, por dois cavalos. Sempre dois animais iguais conduzem o veículo, porém de cores opostas. São eles que levam, mas quem guia é o homem.
No Tarô de Marselha, os cavalos vestem no pescoço o símbolo alquímico do ouro, o que oferece uma pista importante sobre as letras S e M inscritas no centro da carta: sulphur e mercurius — enxofre e mercúrio, os dois principais elementos da alquimia.
O mercúrio é o princípio feminino: volátil, passivo, leve.
O enxofre é o princípio masculino: estável, ativo, pesado, devorador dos metais.
A união desses dois princípios resulta no chamado “coito da Rainha e do Rei”. São também sete as etapas do processo alquímico: calcinação, sublimação, solução, fermentação, separação, coagulação e união.
Sabe-se que a transmutação final da alquimia é, na verdade, espiritual. A química era apenas um disfarce para proteger os alquimistas da perseguição da Igreja Católica. O ouro alquímico é metafórico. O Carro segue adiante na estrada da transformação: não pede licença. Após digerir os cinco primeiros arcanos, no sexto escolhe um caminho, e no sétimo caminha decididamente na direção escolhida, mirando o chamado “ouro não-vulgar”, como o definiam os alquimistas chineses.
Movimento, Direção e Determinação
Movimento, dinamismo, determinação, foco e mobilidade são conceitos que se ajustam perfeitamente à estrutura do Carro: uma carruagem que transporta um nobre, impulsionada pela força de dois animais, rumo a um objetivo premeditado. O Carro não escolhe mais, não hesita: ele avança.
Esta é a carta de Câncer, signo cardinal de água. Emoções com direção. Não se está perdido — segue-se o coração. O cocheiro carrega luas nos ombros, astro regente da carta. O Carro é uma correnteza: conduz a água incansável e, se necessário, cava caminhos mais profundos para passar.
“Abra o caminho para o Carro.” Ele é o dono da rua. Quem o conduz tem pressa e precisa domar duas forças opostas, equilibrando-as. Coragem, força e percepção são exigidas aqui — um ensaio para a responsabilidade que aguarda no Arcano VIII.
Entretanto, se o condutor do Carro não reconhecer a coroa que traz sobre a própria cabeça, retorna à condição de mortal inerte e confuso do arcano anterior. Assumir as rédeas e segurar firme o touro pelo chifre é indispensável neste encontro.
O Carro é a força que move quem perdeu alguém durante a pandemia e precisa continuar. Quem faliu. Quem abriu um novo negócio. Quem se recuperou de uma doença que matou 108.536 pessoas só no Brasil até o momento em que este texto foi escrito. É preciso seguir em frente, pois a notícia é clara: não há outra opção.
É o amadurecimento imposto pela realidade. O mundo não para diante das nossas dores, nem pausa para comemorar nossas alegrias. “Toda vez que eu dou um passo, o mundo sai do lugar.”
O Corpo, a Cabala e o Mito
O nosso corpo não é muito diferente desse carro do tarô. Trata-se de uma estrutura grande e complexa, responsável por nos transportar para onde precisamos estar. O corpo precisa de movimento; sem ele, não se manifesta e, consequentemente, não progride. Um carro parado é inútil — o corpo também.
Na Cabala, o Arcano VII representa o caminho na Árvore da Vida que liga Geburah (a força da ação, Marte) a Binah (a Matrona, o entendimento que direciona a energia). É equivalente à destilação, separação ou exaltação nos processos alquímicos.
Pode ser o carro de Apolo, entregue ao filho inexperiente Faetonte, para que provasse ser digno de conduzir o Sol diante de todos — tarefa na qual fracassa. Falta-lhe, como falta a muitos de nós, a paciência para respeitar o tempo das coisas que nos ultrapassam. Querer colher frutos antes de reconhecer limites e capacidades.
Pode ser também o carro celestial dos anjos, visto por Ezequiel (1:4–28). Ou ainda o mito de Júpiter e Sémele, no qual a mortal pede para ver o amado em todo o seu esplendor divino e acaba fulminada pelo trovão. Morre ali o gênio do amor terreno que não suporta a divindade — nas palavras de Moreau, morre “o gênio com os cascos de cabra”.
Desejo, Ação e Coragem
Há quem defenda que o Carro fala da libido, do desejo. Concordo, desde que se pense em um desejo que já virou ação. O desejo impulsiona; o medo paralisa. “A vitória é um produto da vontade”, disse o marechal Ferdinando.
A urgência exige pensar menos, ponderar menos, medir menos os detalhes. Aja. O Arcano VII é imperativo. A tragédia está feita — e é refeita todos os dias. Outras ainda virão.
“As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios / provam apenas que a vida prossegue.”
Não se trata de uma atitude irracional. Existem sete arcanos (incluindo O Louco, Arcano 0) antes que a ação aconteça. Diante dos escombros, cabe-nos a reconstrução. Para isso, é preciso arregaçar as mangas, juntar os cacos e, com a prudência de quem conduz duas forças irmãs, mirar o alvo e avançar — de frente para o medo e para a chuva.
Se o desejo é a semente que gera o Carro, a coragem deve ser o seu combustível.
“Chegou um tempo que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.”
Só é preciso cuidado para não atropelar ninguém.
O Carro nos Baralhos Tradicionais
O Carro (VII) é o sétimo trunfo, ou carta dos Arcanos Maiores, na maioria dos baralhos tradicionais de tarô. Ele é utilizado tanto em jogos de cartas quanto na adivinhação.
Descrição
Uma figura está sentada em um carro, embora não segure rédeas, sendo puxada por duas esfinges ou cavalos. Frequentemente aparece um contraste em preto e branco: um animal claro e outro escuro. A figura pode estar coroada ou usar um elmo e, em algumas representações, possui asas. Pode também segurar uma espada ou uma varinha.
No baralho Thoth, a figura controla quatro animais.
O malhete, presente no brasão do carro, é um símbolo maçônico que representa o autocontrole. Um dossel de estrelas acima da cabeça do cocheiro simboliza as influências celestiais.
Interpretação Divinatória
De acordo com The Pictorial Key to the Tarot (1910), de A. E. Waite, a carta do Carro apresenta as seguintes associações:
O Carro (VII):
Socorro, providência; também guerra, triunfo, presunção, vingança, dificuldades.
Invertido:
Tumulto, briga, disputa, litígio, derrota.
Correspondência Astrológica
Na astrologia, o Carro é associado ao signo Câncer, feminino e cardinal do elemento água, e ao seu astro regente, a Lua.estilizado (parece uma espadinha com asas e cobras). O “V” dourado representa as duas cobras do Caduceu. O carro é branco (pureza) e azul em contato com a Lei.
Arcano VIII – A Força (Strength)

A Força (VIII) é um dos Arcanos Maiores mais profundos e reveladores do Tarot. Sua imagem central apresenta uma jovem mulher serena dominando um leão, mas a verdadeira essência da carta está no modo como ela realiza esse ato. Não há luta, tensão nem brutalidade. Não há necessidade de violência, imposição ou esmagamento. A Força ensina que o verdadeiro poder não se manifesta pela agressão, mas pela consciência, equilíbrio interior e domínio espiritual.
Ela não derrota o leão — ela o compreende, o guia, o integra. O triunfo aqui não é sobre o animal exterior, mas sobre a natureza selvagem e instintiva que habita o próprio ser humano.
Simbologia Essencial
Na maioria dos baralhos, a mulher aparece abrindo suavemente as mandíbulas do leão. Sua expressão é tranquila, confiante e luminosa. Não há sofrimento nem esforço visível. Sua postura transmite naturalidade, segurança e controle absoluto de si mesma.
Ela veste um manto vermelho, símbolo da energia vital, da paixão e da vontade ativa, sobre roupas azuis, que representam espiritualidade, pureza e serenidade interior. Na cabeça, brilha o símbolo da lemniscata, a figura do infinito — a mesma presente no Mago — indicando consciência elevada, ligação com o divino e domínio contínuo sobre as forças internas.
O leão representa os impulsos primitivos, as paixões intensas, os desejos ardentes, a agressividade e a força bruta das emoções. Porém, na Força, ele não é vencido pela repressão, e sim transformado pela consciência. Ele continua sendo força, mas agora uma força canalizada, orientada, criativa.
Associada ao número VIII, símbolo de equilíbrio, continuidade e movimento controlado, e à letra hebraica Teth, a Força expressa disciplina interior, firmeza moral e integração harmônica entre emoção, instinto e razão.
Palavras-Chave
Virtude • Coragem • Autodomínio • Força Moral • Disciplina Interior • Controle Consciente • Energia Psíquica • Vontade Direcionada • Vitória Espiritual sobre a Matéria
Aspectos Psicológicos e Existenciais
Mental
Clareza, lucidez, discernimento. A mente aprende a diferenciar o essencial do superficial, o verdadeiro do ilusório, o desejo autêntico da impulsividade cega.
Emocional
Domínio das paixões e estabilidade afetiva. Capacidade de amar sem submissão, agir sem perder a identidade e sentir sem se afogar nas emoções.
Material e Físico
Determinação, capacidade de enfrentar desafios e firmeza para concluir processos. Representa a força justa, a proteção, a persistência e a segurança interior.
Aspecto Sombrio
Quando mal vivida, a Força pode significar impulsividade, agressividade, abuso de poder, raiva reprimida, explosões emocionais, fraqueza moral, descontrole instintivo e colapso pelo mau uso da energia vital.
História e Tradição Simbólica
A imagem do homem vencendo o leão remonta a antigas narrativas mitológicas e religiosas: Hércules, Sansão, Davi e outros heróis enfrentaram a fera como símbolo do confronto com a própria natureza animal. Entretanto, o Tarot opera uma transformação decisiva nessa tradição: em vez de um guerreiro masculino, surge uma mulher delicada, segura e consciente.
Esse detalhe muda tudo.
Não se trata da força física, mas da suavidade firme; não da dominação violenta, mas do domínio interior; não de esmagar a fera, mas de elevá-la. A Força faz eco ao mito de Cirene, a ninfa que venceu um leão com graça e determinação, onde deuses e guerreiros hesitavam. Assim, a carta afirma que o verdadeiro poder espiritual pertence à serenidade e não à brutalidade.
Alguns intérpretes veem nessa carta uma correspondência simbólica entre Virgem e Leão — o intelecto luminoso e consciente integrando e guiando as paixões ardentes. A mensagem permanece clara: não é preciso destruir o instinto; é preciso iluminá-lo.
Essência Espiritual do Arcano
A Força representa o poder interior em sua forma mais elevada.
Não é dureza.
Não é violência.
Não é imposição.
É autodomínio.
É saber que dentro de nós habitam forças intensas — desejos, medos, instintos e paixões — e que a verdadeira vitória consiste em reconhecê-las, acolhê-las e conduzi-las com sabedoria. É a coragem silenciosa, a dignidade interior, a firmeza compassiva.
O sábio não mata o leão.
O sábio transforma o leão em aliado.
Esse é o ensinamento profundo da Força:
governar a si mesmo é a maior conquista que um ser humano pode alcançar.
Arcano IX – O Eremita (The Hermit)

O Eremita é o nono Arcano Maior do Tarot e simboliza o recolhimento consciente, a pausa voluntária e a busca interior pela verdade. Representa o momento em que a alma se retira do movimento do mundo para aprofundar a consciência, compreender experiências e ouvir aquilo que só pode ser percebido no silêncio. Não é fuga nem renúncia por fraqueza; é escolha madura, disciplina espiritual e necessidade interior de clareza.
Associado à letra hebraica Yod e ao número IX, o Eremita expressa a sabedoria que nasce da experiência vivida, do tempo, da reflexão e do amadurecimento. Ele se afasta para enxergar melhor. Guarda silêncio para escutar mais profundamente. Caminha sozinho não por desprezo à humanidade, mas porque certas etapas da jornada só podem ser percorridas na solidão da própria consciência.
Simbologia
A carta apresenta um ancião envolto em um manto, apoiando-se em um bastão, enquanto ergue uma lanterna diante de si. A imagem é simples e grandiosa: não há adornos, multidões ou distrações. Apenas o homem, a luz, o caminho e o vazio ao redor.
A lanterna simboliza a sabedoria interior, o discernimento e a luz da consciência. Ela não ilumina a estrada inteira, apenas o próximo passo — ensinando que a evolução espiritual é gradual, paciente e humilde.
O bastão é apoio, tradição, prudência e continuidade. Ele sustenta o caminhar e representa aquilo que já foi conquistado pela experiência.
O manto protege, resguarda e preserva. É o símbolo da discrição, da reserva e do cuidado com verdades que não podem ser exibidas de maneira superficial.
O vazio ao redor reforça uma verdade essencial: quem carrega sua própria luz não teme a escuridão. O mundo pode estar silencioso e árido; ainda assim, a jornada continua.
Palavras-chave
Sabedoria • Introspecção • Silêncio interior • Discernimento • Prudência • Autoconhecimento • Busca pela verdade • Iluminação gradual • Maturidade espiritual • Orientação
Mental
Clareza profunda, compreensão serena, lucidez que surge quando o barulho cessa.
Emocional
Equilíbrio adquirido, prudência nas relações, afetos mais conscientes e selecionados.
Material e físico
Revelação de verdades ocultas, esclarecimento de situações confusas; na saúde, consciência do real estado e busca responsável por cura e orientação.
Aspecto sombrio
Isolamento excessivo, frieza, melancolia, fechamento emocional, rigidez mental, pessimismo, distanciamento improdutivo ou fuga da vida.
História e Iconografia
O Eremita é um dos arcanos de simbolismo mais direto. A imagem do peregrino solitário com manto e cajado é antiga, ligada a monges, sábios e mestres espirituais. Porém, a lanterna acrescenta um significado decisivo, lembrando figuras como Diógenes, que caminhava com uma lamparina “em busca do homem verdadeiro”. Assim, o arcano passa a expressar despojamento, busca autêntica, crítica às ilusões sociais e valorização da verdade essencial.
Em algumas versões antigas, a lanterna é substituída por uma ampulheta, reforçando a ligação com Saturno: tempo, paciência, amadurecimento, responsabilidade e sabedoria adquirida lentamente.
A grafia arcaica L’Hermite sugere também associação simbólica com Hermes/Thoth, guardião do conhecimento oculto, mestre dos mistérios e guia entre mundos.
O Eremita surge como mediador entre dois impulsos humanos: a pressa impetuosa do Carro e a rigidez racional da Justiça. Ele ensina o tempo certo do agir, a importância da pausa e o valor do recolhimento. Enquanto o Papa (V) transmite conhecimento ao coletivo, o Eremita guia em silêncio, conduzindo apenas aqueles que realmente buscam.
Essência Espiritual do Arcano
O Eremita é o mestre interior.
É a luz que nasce do silêncio.
É o guia que caminha à frente, iluminando apenas o passo necessário.
Ele ensina prudência sem medo, disciplina sem rigidez e solidão sem dor. Mostra que existem momentos em que precisamos nos afastar para curar, amadurecer, compreender — e então retornar mais íntegros.
O Eremita não abandona o mundo:
ele se eleva acima dele.
E ao erguer sua lanterna, lembra que aquele que encontra sua própria luz, um dia, pode iluminar o caminho de outros.
Arcano X – A Roda da Fortuna (Wheel of Fortune)

A Roda da Fortuna é o décimo Arcano Maior do Tarot e representa o grande movimento da existência. Depois da introspecção, do silêncio e da maturidade conquistada com o Eremita, surge agora o impulso da vida que volta a girar. Nada permanece fixo; tudo evolui, oscila, se transforma. A Roda expressa precisamente esse fluxo inevitável: os ciclos de ascensão, apogeu, queda e renascimento que acompanham toda experiência humana.
Associada à letra hebraica Kaph e ao número 10, ela representa a totalidade em movimento: um ciclo que se encerra enquanto outro simultaneamente se inicia. É o mecanismo invisível do destino, o ponto em que forças superiores atuam além da vontade individual. O ser humano nem sempre controla o que acontece, mas pode aprender a escolher como atravessar as mudanças.
Simbologia
A carta mostra uma grande roda suspensa no espaço simbólico da existência. Sobre ela e ao redor dela surgem figuras que sobem, alcançam o topo, caem e recomeçam. São imagens vivas do movimento constante da vida, das viradas inesperadas, das transformações inevitáveis.
Nos baralhos clássicos, uma esfinge ocupa o topo da roda, empunhando uma espada. Ela representa o enigma do destino, a lei superior que rege tudo o que acontece. Mesmo quando a vida parece caótica, existe ordem por trás do movimento. Nada gira sem sentido.
As figuras que ascendem, reinam e caem revelam as fases da experiência humana: momentos de triunfo, esperança, estabilidade, declínio e renovação. Assim como as estações do ano, os ciclos da lua, os ritmos do corpo e da alma, tudo obedece a um movimento natural.
A Roda também sugere uma verdade profunda: enquanto a borda gira em intenso movimento, o centro permanece imóvel. O centro é o espírito, a consciência, a essência eterna. A borda é a vida material, sujeita às mudanças. A sabedoria consiste em aprender a viver o movimento sem perder o eixo interno.
Palavras-chave
Destino • Mudança • Ciclos • Transformação • Movimento inevitável • Viradas repentinas • Evolução • Oportunidade • Instabilidade criativa
Mental
Compreensão dos ritmos da vida, visão mais ampla, percepção das causas e efeitos.
Emocional
Renovação interior, retomada de entusiasmo, esperança que renasce.
Material e físico
Mudanças necessárias, transições, novas oportunidades, dinamismo. Em muitos casos, bons presságios quando há abertura e disposição para seguir o fluxo.
Aspecto sombrio
Mudanças bruscas ou difíceis, instabilidade, perdas temporárias, confiança excessiva no acaso, irresponsabilidade, tentativa de controlar o incontrolável.
História e Iconografia
A imagem da Roda é uma das mais antigas alegorias espirituais da humanidade. Muito antes de se tornar arcano do Tarot, ela figurava em manuscritos medievais, vitrais de catedrais, esculturas e textos antigos. A Roda da Fortuna era representada conduzindo reis e mendigos, lembrando que ninguém está definitivamente seguro no topo nem condenado para sempre à base.
Na tradição romana, Fortuna era uma força cega e inevitável. Nas catedrais góticas, rosetas circulares lembravam o movimento do cosmos e da existência. Em imagens clássicas, quatro estágios aparecem ao redor da Roda: quem sobe, quem reina, quem cai e quem já caiu — destino comum a todos.
A Roda também é mandala, cosmos, tempo, vida. Ela reúne filosofia, mistério, lei espiritual e realidade concreta. Representa o eterno retorno e o aprendizado que só é possível através da experiência.
Essência Espiritual do Arcano
A Roda da Fortuna não fala apenas de “sorte”. Ela anuncia transformação inevitável. O que hoje está embaixo pode subir; o que está no alto pode descer. Tudo se move. Tudo vive. Tudo se renova.
Esse arcano ensina confiança no fluxo da vida, inteligência para agir quando a oportunidade surge e serenidade para aceitar o que não pode ser controlado. Resistir ao movimento gera sofrimento; compreender o ritmo traz sabedoria.
A Roda gira.
Mas quem encontra o centro permanece em paz,
enquanto tudo ao redor continua a se transformar.
Arcano XI – A Justiça

A Justiça é o décimo primeiro Arcano Maior do Tarot e simboliza o ponto de equilíbrio da jornada espiritual. Depois do movimento imprevisível da Roda da Fortuna, surge aqui a necessidade de ordem, discernimento e alinhamento interno. Nada é julgado por impulso: tudo é ponderado. Este arcano representa a lei que rege o universo — não apenas a justiça humana, mas a Justiça interior, silenciosa e infalível.
Associada à letra hebraica Lamed e ao signo de Libra, a carta fala de harmonia, equilíbrio entre forças opostas, compensação de ações e consequências inevitáveis. Não se trata de punição, mas de correção. A Justiça não é vingativa; é restauradora. Coloca cada coisa em seu lugar, ajusta, equilibra, reordena.
Simbologia
A carta mostra uma figura feminina sentada em um trono. Ela é serena, firme e impessoal. Não expressa agressividade nem doçura: apenas lucidez. Em sua mão direita está a espada erguida, símbolo da decisão, da verdade e da ação reta. Em sua mão esquerda, na altura do coração, está a balança, com os pratos perfeitamente equilibrados — lembrando que o verdadeiro julgamento inclui razão e sentimento na justa medida.
Sua túnica sugere a forma de uma mandorla, semelhante à do arcano XXI, O Mundo, simbolizando o espaço onde polaridades se conciliam. A Justiça não rejeita extremos: ela os integra.
Diferentemente da iconografia de Têmis, aqui não há venda nos olhos. A Justiça do Tarot vê. Observa profundamente. Penetra as aparências para alcançar a essência. Ela enxerga não apenas fatos, mas intenções.
Palavras-chave
Equilíbrio • verdade • ordem interna • clareza de julgamento • lei • ética • reparação • responsabilidade • lucidez
- Mental: clareza, análise justa, sabedoria prática, capacidade de avaliar com precisão.
- Emocional: rigidez e honestidade afetiva; pode indicar cortes necessários, separações, vínculos que precisam ser reajustados.
- Físico: processos legais, prestação de contas, avaliação de situações; tendência à estabilidade, mas alerta para consequências de excessos.
Sentido negativo: injustiça, prejuízos, rigidez excessiva, julgamentos distorcidos, frieza emocional, abuso de autoridade, desordem moral.
História e Iconografia
A alegoria da Justiça como mulher com balança e espada remonta à arte romana e atravessou toda a Idade Média. Durante um período, esses atributos foram associados ao Arcanjo Miguel, o pesador de almas, herdeiro simbólico de Osíris — reforçando o caráter de julgamento espiritual, não apenas social.
Com o tempo, a imagem consolidou-se na figura feminina serena, impassível e consciente. A balança representa harmonia, compensação e medida justa. A espada, a decisão, a sentença, a palavra definitiva que corta ilusões e revela a verdade.
Assim como Libra, este arcano não fala apenas de leis externas. Ele simboliza a Justiça interior — o mecanismo psíquico e espiritual que nos conduz à responsabilidade sobre nossos atos. Aqui, culpa e resultado não são coisas separadas: são parte do mesmo processo.
Essência Espiritual do Arcano
A Justiça ensina que cada ação encontra sua resposta. Não como castigo, mas como aprendizado. Ela nos convida à consciência: pesar atitudes, revisar escolhas, alinhar pensamento e emoção antes de agir. Representa maturidade moral, lucidez e retidão.
Sua mensagem é clara:
agir com verdade, viver com integridade, escolher com responsabilidade.
Pois a Justiça não julga apenas — ela equilibra a alma com seu próprio destino.
Arcano XII – O Enforcado (O Pendurado)

O Enforcado, também chamado de O Pendurado, é o décimo segundo Arcano Maior do Tarot e representa um ponto crítico da jornada espiritual: a pausa iniciática, a suspensão consciente, o estado entre o que já não serve e o que ainda não nasceu. Associado à letra hebraica Mem, ligada às águas primordiais, ao inconsciente e ao mistério da vida em gestação, este arcano expressa o sacrifício voluntário, a renúncia lúcida e a transformação silenciosa que ocorre no interior antes de qualquer renascimento verdadeiro.
Aqui não existe derrota. O Enforcado não é um punido inconsciente; ele é o ser que aceita ser “pendurado” para inverter o olhar, transmutar percepções e abrir-se a níveis mais profundos de consciência. Ele para para compreender; aceita a imobilidade externa para ativar a movimentação interior; oferece-se à experiência para renascer de modo mais elevado.
Simbologia
A carta apresenta um homem suspenso pelo pé esquerdo, preso a uma trave sustentada por duas árvores de galhos cortados. Essas árvores simbolizam ciclos já vividos, experiências concluídas, aprendizados colhidos. A sustentação é firme, mas a posição é invertida: o mundo está ao contrário, e com ele a percepção.
A perna livre cruza atrás da perna presa, formando uma figura simbólica ligada à ideia alquímica do sacrifício consciente e da união dos opostos. As mãos ocultas reforçam o recolhimento e o direcionamento das forças para dentro — agora não é tempo de agir, mas de sentir, amadurecer e compreender.
A cabeça do Enforcado brilha com uma auréola luminosa: sinal de sabedoria, serenidade e iluminação interior. Não há dor em seu rosto. Há aceitação. Ele está em paz com a experiência.
Palavras-chave
Sacrifício consciente • pausa necessária • entrega espiritual • prova iniciática • gestação interior • renúncia lúcida • transição • mudança de visão • serenidade diante da espera
Mental
Ideias em maturação, percepções em desenvolvimento, processos que ainda não estão prontos para se manifestar; convite à paciência e à observação.
Emocional
Incertezas, sentimentos não definidos, afetos suspensos; a alma ainda busca clareza e verdade.
Material e físico
Limitações temporárias, interrupções, espera forçada ou escolhida; necessidade de abrir mão de algo para conquistar algo maior.
Aspecto sombrio
Passividade extrema, submissão inconsciente, sacrifícios sem propósito, promessas vazias, estagnação, desistência, perdas emocionais ou projetos que não se concretizam por falta de fé e direção.
História e Iconografia
A imagem do homem suspenso atravessa culturas e épocas. Em Roma e na Idade Média, pendurar alguém pelos pés era uma forma de humilhação e castigo. No cristianismo, a imagem lembra São Pedro crucificado de cabeça para baixo, não por indignidade, mas por humildade e reverência espiritual.
Por outro lado, em tradições antigas do Oriente Médio e em culturas ritualísticas, figuras invertidas tinham significados místicos: eram símbolos de contato com mundos invisíveis, introspecção sagrada e estados alterados de consciência. O “invertido” não é apenas alguém fora da norma — é aquele que enxerga o que os demais não percebem.
No Tarot, O Enforcado representa esse estado liminar: não morte, não ação plena — mas um intervalo sagrado entre mundos.
Essência Iniciática
Para autores esotéricos como Oswald Wirth, o Enforcado é o iniciado submetido à prova necessária. Se o Mago abre o caminho pela vontade ativa, o Enforcado prossegue por via oposta: a entrega consciente. Ele não domina — confia. Não força — permite. Não luta — compreende.
Ele simboliza o sacrifício que liberta, não que destrói. Representa a renúncia dos apegos, a dissolução de identidades rígidas, a coragem de deixar para trás o que já cumpriu sua função. É a semente enterrada na terra: não aparece, não se move, mas prepara silenciosamente a vida que irá despontar.
Por isso, também está ligado à inspiração profunda, à sensibilidade artística, à intuição ampliada e ao amor universal que não aprisiona, mas doa.
Mensagem Espiritual do Arcano
O Enforcado ensina que certas travessias não são superadas pela força, mas pela rendição consciente. Ele convida à paciência, à introspecção, à confiança nos ritmos invisíveis da alma. É o momento de suspender a pressa, de contemplar, de permitir que a transformação aconteça no tempo correto.
Sua sabedoria é clara e simples:
Para avançar, às vezes é preciso parar.
Para receber, é preciso soltar.
Para renascer, é preciso morrer para o velho.
O Enforcado é o silêncio antes do despertar.
É a pausa que prepara o milagre.
Arcano XIII – A Morte

A Morte é o décimo terceiro Arcano Maior do Tarot e, embora costume causar receio aos menos experientes, é uma das cartas mais essenciais e reveladoras do baralho. Associada à letra hebraica Nun, ligada aos processos de transformação, dissolução e renascimento, este arcano não trata apenas do término literal, mas do encerramento de ciclos, do desapego necessário e da profunda transmutação interior.
No Tarô de Marselha, ela surge como “A Carta sem Nome”, indicando que sua natureza ultrapassa a simples ideia de morte física. Em muitos baralhos contemporâneos é chamada de “Morte–Renascimento”, reforçando seu sentido de passagem e recriação.
Simbologia
A carta apresenta a figura da Morte como um esqueleto — aquilo que permanece quando tudo o que é transitório desaparece. Ele porta uma foice, instrumento que corta, separa e limpa o que já terminou sua função, abrindo espaço para o surgimento do novo.
No chão, restos de diferentes figuras humanas — reis, sacerdotes, plebeus — mostram que a Morte é absoluta e igualitária: nenhum status humano detém os ciclos da existência. Entretanto, do solo negro brotam flores e pequenas plantas coloridas. Do que se decompõe nasce fertilidade. O que morre alimenta o que vem.
Nos baralhos esotéricos, principalmente no Rider–Waite–Smith, a Morte aparece montando um cavalo branco e empunhando uma bandeira negra ornada com uma flor branca: pureza essencial preservada apesar da dissolução. Ao fundo, um sol nasce entre duas torres — imagem clara de que após o período mais escuro, sempre há uma nova aurora.
Nada aqui é estagnação. A figura avança. A Morte é movimento. Ela representa a passagem de um estado a outro.
Palavras-chave
Transformação profunda • término de ciclo • renascimento • desapego • inevitabilidade • purificação • reconstrução interior • libertação
Mental
Ruptura de padrões, renovação de ideias, clareza radical que encerra velhos modos de pensar.
Emocional
Encerramento de vínculos, sentimentos que se dissolvem, corações que aprendem a soltar.
Material
Fim de situações, cortes necessários, encerramento de fases para que novas estruturas possam nascer.
Aspecto sombrio
Resistência à mudança, apego ao passado, medo do desconhecido, estagnação dolorosa.
História e Iconografia
A imagem do esqueleto ceifador, tão comum hoje, foi fortemente difundida pelo próprio Tarot. Se isso se confirma, o baralho teria marcado profundamente o imaginário ocidental.
O número treze já carregava simbolismo ambíguo desde a Idade Média. Não era apenas número de azar: era o número da transição, do corte inevitável, da passagem além de uma completude aparente. Era não o fim absoluto, mas o rompimento da estabilidade ilusória.
As Danças Macabras dos séculos XV e XVI reforçaram a ideia de que a Morte alcança todos — governantes, clérigos, trabalhadores — como força niveladora da existência. A foice, por sua vez, aparece em tradições bíblicas e simbólicas como instrumento de colheita — não destruição gratuita, mas justiça e renovação.
No esoterismo, a Morte representa o processo necessário após o excesso de fixação material do Imperador: nada pode permanecer imóvel. Para Oswald Wirth, ela é um arcano iniciático: o profano “morre”, para que o ser espiritual possa nascer.
Correspondência Astrológica
A Morte corresponde ao signo de Escorpião, ligado às forças profundas, ao inconsciente, às transformações radicais e à descida ao interior da alma antes do retorno renovado.
Essência Iniciática
A Morte não pune. Purifica. Não destrói por crueldade; dissolve o que terminou, para libertar a essência. Ela ensina que a vida é feita de ciclos. Tudo o que se mantém artificialmente além do tempo sofre. O que é aceito transforma.
Mensagem Espiritual do Arcano
A Morte lembra que nada permanece igual para sempre. É o convite a libertar-se do que já não vive: ideias, padrões, identidades antigas, relações sem alma. Ela abre portas ao desconhecido, mas traz uma promessa inequívoca:
Todo fim contém um novo começo. Após o encerramento de um ciclo, surge a possibilidade de renovação, crescimento e renascimento.
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Esta é apenas a Parte 2 de uma série — Abaixo você continua sua leitura com a Parte 3 – Final:
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