
Quando alguém pergunta o que diferencia o Rito Moderno de outros sistemas maçônicos, muitas respostas aparecem. Alguns lembram que ele trabalha com nove graus. Outros ressaltam a influência francesa. Há quem o ataque chamando-o de “ateu”. No fundo, porém, o Rito Moderno é, antes de tudo, uma forma própria de viver a Maçonaria: laica, universalista, racional e profundamente comprometida com a liberdade de consciência.
Para compreender esse rito, é necessário voltar ao ambiente em que ele nasceu. A França do século XVIII era um laboratório de ideias. Filósofos, escritores e políticos discutiam liberdade, soberania popular, ciência, religião e moral. A Maçonaria se desenvolveu nesse cenário e, inevitavelmente, absorveu muito dessa atmosfera. O Rito Moderno é um dos frutos mais significativos desse encontro entre tradição iniciática e pensamento iluminista.
A França do século XVIII e o ambiente intelectual que moldou o rito
No século XVIII, a Maçonaria inglesa já estava organizada, mas era em França que ela ganhava uma cor própria. Intelectuais, nobres e burgueses se aproximavam das lojas em busca de um espaço de debate e de convivência fraterna. Nomes como Voltaire e Rousseau, ainda que com visões diferentes, ajudam a entender o clima intelectual que cercava a Ordem.
Voltaire, com seu estilo direto e espírito crítico, defendia a tolerância religiosa e os direitos civis. Criticava abusos de poder, zombava dos fanatismos e apostava em reformas que tornassem o Estado mais razoável. Rousseau, por outro lado, questionava as desigualdades, defendia a soberania do povo e insistia que a ordem política deveria resultar de um pacto entre os homens. Enquanto Voltaire confiava na razão como instrumento principal, Rousseau sublinhava a dimensão moral e afetiva da vida em sociedade.
Essas ideias circulavam em salões, academias e cafés. Ao mesmo tempo, lojas maçônicas se multiplicavam. Em 1732, surge em Paris uma loja verdadeiramente francesa. A partir daí, o número de oficinas aumenta em várias regiões: Lyon, Rouen, Nantes, Bordeaux, Montpellier e outras cidades passam a abrigar trabalhos maçônicos. Montesquieu, autor de “O Espírito das Leis”, participa de reuniões e ajuda a reforçar o elo entre Maçonaria e reflexão política.
Esse contexto é essencial. O Rito Moderno não aparece por acaso. Ele nasce no meio de uma sociedade que discute separação de poderes, tolerância, laicidade e direitos civis. Por isso, desde o início, traz uma marca inconfundível: não se contenta em repetir fórmulas antigas, mas procura organizar a tradição à luz de um ideal de liberdade e de racionalidade.
Do caos ritual à organização: o Grande Oriente da França

No século XVIII, a Maçonaria francesa crescia depressa, porém nem sempre de forma ordenada. Lojas trabalhavam com rituais diferentes, altos graus surgiam em abundância e muitas estruturas funcionavam quase de forma independente. Essa diversidade tinha sua riqueza, mas também gerava confusão, conflitos e sobreposição de títulos.
Para tentar organizar esse cenário, forma-se, em 1765, uma federação de lojas que viria a ser conhecida como Grande Loja da França. A experiência, entretanto, não resolve todos os problemas. A gestão é contestada, e uma parte significativa da Maçonaria francesa passa a desejar outra solução. Em 1771, uma assembleia de lojas decide extinguir a antiga federação e criar uma nova Obediência: o Grande Oriente da França, instalado solenemente em 1773.
Essa decisão marca um momento chave. O Grande Oriente não se apresenta apenas como novo órgão administrativo. Ele quer ser, ao mesmo tempo, uma federação de lojas e um espaço de convergência de ritos. Em vez de impor um único modelo, assume que a Maçonaria pode se expressar em sistemas ritualísticos diferentes, desde que guiados por princípios comuns.
É nesse processo de reorganização que o Rito Francês, mais tarde chamado de Rito Moderno, ganha seu lugar. Entre 1761 e 1773, grupos de irmãos trabalham para reunir graus dispersos, depurar textos e construir uma ritualística coerente. O objetivo é simples de enunciar, mas exigente na prática: criar um rito que mantenha a essência da Maçonaria especulativa, mas em diálogo direto com a cultura filosófica da época.
Por que “Moderno” ou “Francês”? A identidade de um rito
O nome “Rito Moderno” tem uma história curiosa. Ele se liga à adoção, em França, do ritual praticado pela primeira Grande Loja de Londres, conhecida como dos “Modernos”. Esse ritual, divulgado inclusive por obras como “Masonry Dissected”, foi traduzido e adaptado para uso nas lojas francesas. Ao se consolidar, passou a ser chamado de Rito Francês ou, em muitos países, Rito Moderno.
Enquanto isso, na própria Inglaterra surge uma segunda grande loja, a dos chamados “Antigos Maçons”. Entre “Modernos” e “Antigos” trava-se uma longa disputa, que só termina com a união de 1813, quando se forma a Grande Loja Unida da Inglaterra. As duas linhas, contudo, deixam marcas. O Rito Moderno está ligado ao ramo que, no início, era visto como inovador, mais aberto e, em certos aspectos, menos preso aos costumes tradicionais.
Na França, o rito toma rumo próprio. Mais do que uma simples tradução dos usos ingleses, torna-se um sistema com fisionomia própria. O Grande Oriente de França reconhece essa especificidade e, no final do século XVIII, cria uma Câmara de Altos Graus e um Grande Capítulo Geral. A ideia é clara: reunir os graus superiores, agrupá-los em famílias simbólicas chamadas Ordens de Sabedoria e, assim, colocar ordem no emaranhado de títulos que circulavam pelo país.
O resultado desse trabalho é um rito com três graus simbólicos e cinco Ordens filosóficas. Em vez de dezenas de graus sucessivos, tem-se uma estrutura mais concentrada, porém igualmente rica. Cada Ordem reúne conteúdos equivalentes a vários graus de outros sistemas. O iniciado percorre menos etapas numéricas, mas cada uma delas concentra um conjunto amplo de ensinamentos.
Maçonaria laica: a opção doutrinária do Rito Moderno
Um dos pontos mais sensíveis da história do Rito Moderno é a sua relação com a religião. Não se trata de um detalhe secundário. Desde cedo, a Maçonaria se viu dividida entre modelos mais dogmáticos, que impunham uma formulação teísta específica, e correntes mais abertas, que preferiam manter a Ordem distante de compromissos confessionais.
A primeira Constituição de Anderson, de 1723, tinha um tom mais liberal. Falava em Lei Moral e em homens bons e leais, respeitava a diversidade e evitava impor uma religião concreta. Com o tempo, porém, parte da Maçonaria inglesa caminhará para uma postura mais rígida. Em 1815, com a criação da Grande Loja Unida da Inglaterra, surgem textos que exigem do maçom a crença no “glorioso Arquiteto do Céu e da Terra” e na imortalidade da alma. O que antes era espaço aberto para várias interpretações passa a ter uma moldura dogmática mais nítida.
Na França, a reação não se faz esperar. Em 1839, o Grande Oriente da França publica Estatutos que definem a Ordem como instituição dedicada à solidariedade, ao estudo da moral universal, das ciências e das artes. O foco está no homem, na ética e na vida em sociedade. Ainda não há, ali, uma exigência confessional fechada. Mais tarde, com tentativas de aproximação diplomática com a Inglaterra, surgem fórmulas que mencionam a existência de Deus e a imortalidade da alma. No entanto, o inconformismo com essa direção permanece vivo.
A grande virada ocorre em 1877. O Grande Oriente decide retirar de sua Constituição a obrigatoriedade de tal crença. A Maçonaria, em sua visão, não é igreja, tampouco rival das religiões; é uma escola de aperfeiçoamento humano e de sociabilidade. A fé, para quem a tem, continua sendo parte essencial da vida, mas passa a pertencer ao foro íntimo, e não ao campo das obrigações maçônicas.
O Rito Moderno, ligado a essa reforma, assume de forma clara uma postura laica. Não combate religiões, nem as despreza. Ao contrário, respeita a fé dos irmãos. Apenas entende que a Loja não é o lugar de impor uma doutrina específica, de exigir juramentos sobre um livro sagrado determinado ou de transformar a reunião maçônica em culto religioso.

Agnosticismo e respeito à consciência individual
A posição filosófica do Rito Moderno costuma ser descrita como agnóstica. Essa palavra, muitas vezes mal compreendida, não é sinônimo de ateísmo. O agnóstico não afirma que Deus não existe. Em vez disso, reconhece que o Absoluto, por sua própria natureza, escapa aos limites da razão humana. A partir daí, mantém uma atitude de humildade: admite que a mente humana não é capaz de esgotar o mistério, nem de impor uma definição final a todos.
O ateísmo, ao contrário, afirma com segurança que Deus não existe. Em termos filosóficos, apoia-se em uma posição gnóstica: considera possível saber como é o Absoluto, a ponto de negá-lo. Percebe-se, então, que ateísmo e agnosticismo pertencem a campos distintos. O Rito Moderno dialoga com o segundo, porque prefere reconhecer limites em vez de impor certezas.
Isso tem consequências práticas. Em muitos ritos, um judeu ou um muçulmano é convidado a jurar sobre a Bíblia cristã. Em alguns casos, ele o faz por conveniência, apesar do desconforto interior. Em outros, recusa-se, e sua recusa é vista como problema. O Rito Moderno procura evitar esse tipo de situação. Como se baseia em princípios laicos, não exige que o juramento seja feito em determinado livro religioso. O centro do compromisso não é um texto sagrado específico, mas a Lei Moral e as Constituições maçônicas.
Assim, a Loja torna-se um espaço onde cristãos, espíritas, judeus, muçulmanos, budistas, adeptos de religiões afro-brasileiras e também irmãos sem filiação religiosa clara podem se reunir em pé de igualdade. Cada um mantém sua fé e sua prática fora da Loja. Lá dentro, todos se encontram como maçons, comprometidos com a fraternidade, com a justiça e com o aperfeiçoamento próprio.
O nome do Grande Arquiteto do Universo e o silêncio ritual
A discussão sobre o uso da expressão “Grande Arquiteto do Universo” também faz parte da história do Rito Moderno. Em muitos contextos, o símbolo, pensado como representação ampla do princípio criador, acabou sendo identificado na prática com a figura de Deus de uma tradição específica. Ora se recitavam preces, ora se adotavam fórmulas muito próximas de liturgias religiosas. O que deveria ser um sinal de união transformava-se, aos poucos, em ponto de divisão.
Para preservar a liberdade de consciência, algumas Obediências ligadas ao Rito Moderno decidiram retirar dos rituais a invocação explícita ao Grande Arquiteto. Essa escolha não significa negar a existência de uma causa primeira ou de uma inteligência ordenadora. Significa apenas não obrigar todos os irmãos a nomeá-la da mesma maneira.

Dentro dessa lógica, quem deseja orar o faz em seu interior. Quem prefere refletir, medita em silêncio. A Loja não se torna um templo religioso, nem assume o papel de substituto da igreja, do terreiro, da sinagoga ou da mesquita. Ela permanece como lugar de trabalho simbólico, estudo, debate e convivência fraterna. A espiritualidade, quando aparece, surge de forma discreta e profundamente respeitosa com a diversidade.
Essa opção também reforça a distinção entre Maçonaria e religião. Quando o maçom entra em templo religioso, sabe que ali participará de um culto. Quando entra em Loja, sabe que participará de um trabalho iniciático. Confundir esses planos gera tensões internas, além de confusão para quem observa de fora. O Rito Moderno, com sua linguagem sóbria, ajuda a manter cada coisa em seu lugar.
Landmarks, tradição e evolução da Maçonaria
Outro ponto que costuma gerar debates acalorados é o dos Landmarks. Em alguns meios, eles são apresentados como verdades intocáveis. No entanto, basta ler a história para perceber que não existe uma lista única, reconhecida por todos. Mackey, Pound, Findel, Lecerff, Grant e outros autores propuseram conjuntos diferentes. Alguns falam em vinte e cinco marcos, outros em mais de cinquenta. Nenhum concílio mundial declarou, de modo definitivo, qual catálogos seria o único e verdadeiro.
O Rito Moderno não rejeita a ideia de que a Maçonaria possua princípios fundamentais. O que ele recusa é transformar listas particulares em dogmas eternos. Os Landmarks, entendidos como limites e referências, fazem sentido. Já a ideia de que nada pode ser revisto a partir de determinado autor é estranha à própria vocação progressista da Ordem.
Quando a Maçonaria afirma que estimula a busca constante da verdade e o desenvolvimento da humanidade, ela admite que o conhecimento humano avança. Isso vale para a ciência, para a política e também para a reflexão filosófica. Um rito que se considere verdadeiramente moderno não pode congelar o pensamento em uma fotografia do século XIX. Ele precisa dialogar com o presente sem perder as raízes.
Por isso, o Rito Moderno prefere falar em princípios e não em dogmas. Princípios são eixos permanentes, como a fraternidade, a liberdade, a igualdade de dignidade entre os homens, o respeito à Lei Moral. A maneira de expressar esses princípios, porém, pode evoluir. O rito, nesse sentido, assume que cabe às gerações sucessivas a tarefa de reinterpretar a tradição, mantendo a fidelidade à essência, mas revendo o que se mostrou contrário à própria natureza da Ordem.
Graus simbólicos e Ordens de Sabedoria: uma estrutura enxuta e profunda
Do ponto de vista ritual, o Rito Moderno tem uma organização clara. Na base estão os três graus simbólicos: Aprendiz, Companheiro e Mestre. Eles formam o alicerce comum de toda a Maçonaria. Em qualquer rito, esses graus iniciam o maçom no uso dos símbolos, no trabalho em Loja e na vida fraterna. No Rito Moderno não é diferente. A diferença aparece, sobretudo, a partir do quarto grau.
Em vez de uma longa escada de títulos numerados até o 33º grau, o Rito Moderno organiza seus graus filosóficos em Ordens de Sabedoria. A Primeira Ordem corresponde aos Eleitos Secretos. A Segunda Ordem trata dos Eleitos Escoceses. A Terceira Ordem reúne os temas do Cavaleiro do Oriente ou da Espada. A Quarta Ordem aproxima o maçom do universo simbólico do Rosa-Cruz. Por fim, a Quinta Ordem culmina na figura do Cavaleiro da Águia Branca e Preta e, em seu grau máximo, no Cavaleiro da Sapiência.
Cada Ordem funciona como um patamar de aprofundamento. Em vez de fragmentar a caminhada em muitos degraus, o Rito Moderno condensa conteúdos que, em outros ritos, aparecem distribuídos em vários graus. Assim, o Eleito Secreto equivale a um conjunto de graus de outros sistemas. O mesmo ocorre com o Eleito Escocês, com o Cavaleiro do Oriente, com o Rosa-Cruz e com os graus da Quinta Ordem.
Esse arranjo não reduz a intensidade da jornada. Pelo contrário, exige do iniciado estudo, reflexão e verdadeira assimilação do que vivencia. Receber um grau no Rito Moderno não é apenas adicionar um número à coleção. É integrar novos símbolos, confrontar-se com questões éticas e espirituais mais profundas e perceber, passo a passo, que o centro do trabalho está na transformação interior.

O Cavaleiro da Sapiência e a responsabilidade de guardar o rito
No topo da estrutura filosófica do Rito Moderno está o 9º grau: Cavaleiro da Sapiência, também chamado de Grande Inspetor do Rito. Ele é frequentemente comparado ao 33º grau do Rito Escocês Antigo e Aceito, pois ocupa posição análoga na hierarquia. No entanto, sua importância vai além da equivalência formal.
Chegar a esse grau significa ter percorrido uma longa estrada de estudos, de participação ativa e de compromisso real com a Ordem. O Cavaleiro da Sapiência não é apenas alguém que passou por cerimônias. Ele é reconhecido como irmão capaz de compreender o sentido do Rito, de defender sua integridade e de orientar os demais. Sua missão envolve preservar a ritualística, zelar pela doutrina, mediar conflitos e ajudar a manter vivo o espírito de liberdade e de universalismo que caracteriza o Rito Moderno.
Em termos práticos, o Grande Inspetor do Rito tem a tarefa de unir teoria e prática. Ele conhece a história, entende as reformas, sabe de onde vêm as opções doutrinárias e para onde tendem. Ao mesmo tempo, é chamado a ser exemplo de conduta, tanto em Loja quanto na vida profana. Sua liderança não se mede apenas por cargos, mas pela capacidade de inspirar confiança, de dialogar e de servir.
Em um mundo onde tantas autoridades se apoiam apenas em títulos, esse grau lembra que a verdadeira autoridade maçônica nasce do trabalho silencioso, do estudo sério e da coerência. O Cavaleiro da Sapiência, nessa perspectiva, é menos um “chefe” e mais um guardião: guarda o rito, guarda a tradição, guarda o espaço de liberdade que permite à Maçonaria continuar sendo escola de aperfeiçoamento humano.valeiro da Sapiência não é um “chefe religioso”, nem um dono da verdade. É alguém que sabe que a verdadeira autoridade nasce do exemplo, da capacidade de ouvir, do compromisso com a justiça e da abertura para o diálogo. Seu papel se exerce tanto no interior do Rito quanto no tecido da sociedade profana.
Resumo da Estrutura dos Graus Filosóficos no Rito Moderno
- 1ª Ordem – 4º Grau: Eleito Secreto
- Este grau é equivalente aos graus 9, 10 e 11 dos ritos Adonhiramita, Brasileiro, e Escocês Antigo e Aceito (REAA).
- 2ª Ordem – 5º Grau: Eleito Escocês
- Equivalente ao 14º grau nos outros ritos.
- 3ª Ordem – 6º Grau: Cavaleiro do Oriente ou da Espada
- Equivalente ao 15º grau nos outros ritos.
- 4ª Ordem – 7º Grau: Cavaleiro Rosa-Cruz
- Equivalente ao 18º grau nos outros ritos.
- 5ª Ordem – 8º Grau: Cavaleiro da Águia Branca e Preta, Cavaleiro Kadosh, Inspetor do Rito
- Equivalente ao 30º grau nos outros ritos.
- 5ª Ordem – 9º Grau: Cavaleiro da Sapiência, Grande Inspetor do Rito
- Equivalente ao 33º grau nos ritos Adonhiramita, Brasileiro e REAA.
A caveira no Rito Moderno: memória da morte e chamado à igualdade

Entre os muitos símbolos que o Rito Moderno utiliza, a caveira ocupa lugar de destaque. À primeira vista, ela remete à morte e pode causar estranhamento a quem vê uma mesa de reflexões ou um altar adornado por essa figura. Com o tempo, porém, o maçom percebe que sua presença é um convite à consciência e não um culto macabro.
A caveira lembra que a vida material é limitada. Por mais que alguém acumule dinheiro, poder ou prestígio, tudo isso se dissolve diante da morte. O rito, ao colocar esse símbolo diante do irmão, incentiva-o a perguntar o que, de fato, permanece. A resposta não está em títulos nem em bens, mas na forma como a pessoa viveu, nas virtudes que cultivou, nas vidas que tocou.
Esse símbolo também fala de igualdade. Quando se olha para uma caveira, não se pode distinguir a origem social, a cor da pele, a profissão ou a religião de quem um dia a animou. Diante da morte, não há privilégios. Todos são nivelados. Em Loja, esse lembrete vale como correção de rumo. Se todos terminarão da mesma maneira, qual o sentido de alimentar vaidades, arrogâncias e disputas mesquinhas?
Ao mesmo tempo, a caveira possui um aspecto ligado à transformação espiritual. Em certos rituais, ela aparece associada a uma morte simbólica. O iniciado é convidado a deixar para trás vícios, ilusões e atitudes que o impedem de crescer. Ao “morrer” para esse velho modo de ser, renasce como alguém mais consciente de sua responsabilidade. Assim, a caveira não é apenas fim, mas também início de uma nova etapa.
Em muitas representações, ela aparece ao lado de relógios ou ampulhetas, reforçando o vínculo com o tempo. O Rito Moderno usa esses elementos para lembrar que o tempo de cada um é limitado e precioso. Adiar indefinidamente o aperfeiçoamento, postergar decisões éticas importantes ou negligenciar a prática das virtudes é desperdiçar um capital que não volta. A caveira, então, torna-se um símbolo de urgência serena: o momento de viver de forma reta é agora.
O caminho do Rito Moderno na maçonaria lusófona
A história do Rito Moderno não fica restrita à França. Portugal e Brasil também fazem parte dessa trajetória. No início do século XIX, o Grande Oriente Lusitano adota o Rito Francês e cria estruturas próprias para as Ordens de Sabedoria. Hipólito José da Costa, figura central no pensamento maçônico lusófono, leva cartas patentes, estabelece tratados e contribui para consolidar o modelo francês em língua portuguesa.
No Brasil, o Grande Oriente, fundado em 1822, nasce sob forte influência do Rito Moderno. Somente alguns anos depois o Rito Escocês Antigo e Aceito se tornará dominante em muitos ambientes. Durante um bom tempo, o Rito Francês é uma das principais referências da Maçonaria brasileira. Mesmo quando outros ritos passam a ocupar o centro do palco, o Moderno permanece como linha viva, especialmente em corpos que assumem perfil mais liberal e laico.
Hoje, o Rito Moderno continua presente no espaço lusófono. Supremos Conselhos específicos mantêm o trabalho das Ordens de Sabedoria. Tratados de reconhecimento garantem a equivalência de graus com outros ritos. E numerosas lojas, sob diferentes Obediências, seguem trabalhando com esse sistema, no qual a liberdade de consciência e a laicidade são afirmadas com clareza.
Essa presença não é apenas histórica. Em sociedades marcadas por debates intensos em torno de religião e política, o Rito Moderno oferece uma forma de Maçonaria que respeita a fé de cada um, mas não a transforma em requisito obrigatório. Ele continua a propor, como ideal, um universalismo real: homens de crenças diversas sentam-se lado a lado, estudam, refletem e agem juntos em favor de um mundo mais justo.
O Rito Moderno como projeto de universalismo e liberdade
Ao final dessa visão panorâmica, fica evidente que o Rito Moderno é mais do que um arranjo de graus. Ele expressa um projeto. Esse projeto pode ser resumido em alguns eixos: laicidade, liberdade de consciência, respeito à diversidade, recusa ao dogmatismo e compromisso com a dignidade humana.
Em vez de se fechar em fronteiras confessionais, o rito prefere abrir a Loja para irmãos de muitas origens religiosas e filosóficas. Em vez de tratar Landmarks como dogmas intocáveis, prefere manter viva a ideia de que a Maçonaria, sendo progressista, deve permanecer em diálogo com o tempo em que vive. Em vez de multiplicar títulos, concentra sua energia em fazer de cada grau uma verdadeira etapa de crescimento interior.
Quem percorre esse caminho descobre que a grande questão não é “até que grau você chegou”, mas “quanto do que viveu foi realmente integrado em sua vida”. O Rito Moderno, com seus nove graus e suas Ordens de Sabedoria, oferece uma rota clara. Nela, o maçom é chamado a pensar com liberdade, a agir com responsabilidade e a viver, na prática, os ideais de fraternidade, igualdade e justiça.
Em um mundo atravessado por radicalismos e por conflitos de identidade, esse projeto permanece atual. O Rito Moderno mostra que é possível honrar a tradição sem prender-se a dogmas; é possível valorizar a espiritualidade sem transformar a Loja em igreja; é possível, enfim, ser maçom de forma coerente com o espírito da modernidade: crítico, consciente e profundamente humano.
📚 Referências bibliográficas
1. Pigeard, Alain et al. Os Franco-Maçons. Editora Pergaminho, 2003.
2. Marques, A. H. de Oliveira. História da Maçonaria em Portugal – Volume I. Editorial Presença, 1990.
3. Arnaut, António. Introdução à Maçonaria. Coimbra Editora, 2000.
4. Guerra, Victor. Rito Francês – História, Reflexões e Desenvolvimento. Masonica.es, 2018.
5. Guerra, Victor. Rito Moderno. Masonica.es, 2019.
6. Grande Oriente Lusitano. Documentos Históricos do Rito Francês.
7. Textos históricos do Grande Oriente da França – Constituições e Atas do Convento de 1773 e 1786.
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